Fatinha

Carnaval

In Sem categoria on 04/10/2008 at 6:25 PM

Querido Brógui,

Chegamos a 2006. Tá ficando difícil de fazer uma seleção. Essa aqui tá imperdível. Tenho certeza de que vão lembrar.

“Querido Diário,

Inicio essa edição do Querido Diário Politicamente Incorreto para falar do Carnaval, festa do povo, cartão postal do Brasil e celebração do profano enquanto manifestação cultural da massa.
Jamais gostei, ainda que mamãe na minha tenra idade tivesse investido nesse aspecto da minha educação. Punha fantasia e tudo. Já saí de oncinha, de índia, tenho fotos para provar. Mas nunca passou disso. Meus pais me levavam para ver o carnaval na Cidade, desfile do Bafo da Onça e do Cacique de Ramos. Até pro Cordão da Bola Preta eu fui. Bailinho de clube, 28 de setembro pra ver os blocos de quinta categoria (onde eu me admirava com os travestis, já que isso que sempre me pareceu estranho).
De nada adiantou todo esse trabalho de base. Eu não consigo ver a menor graça nessa festa. Gosto apenas do clima de férias coletivas, nada funcionando, todo mundo imbuído desse go for it.
Então vou passar ao X da questão. Vou meter o pau (sem duplo sentido) no carnaval, começando pelas Escolas de Samba.
Fala sééééério! O que são aqueles carros alegóricos com aqueles bonecões horrorosos? A Vila Isabel, campeã, orgulho do bairro onde moro sempre, trouxe o Simon Bolívar numa pose “tô cagando em pé”. Aquela outra, acho que a Unidos da Tijuca, trouxe um bebê que parecia o filho do Chuck afro-americano (simbolizando sei lá o que). Sim, tem toda uma explicação pra tudo…
E aquele monte de penas, de brilhos, de dourados? Uma ode ao cafona.
E as pobres das baianas marchando uma atrás da outra?
E as alas coreografadas? Quer coisa mais anti-carnaval do que esse excesso de organização? Já que é pra entrar na avenida, que se pule, se brinque. Ficar de passinho marcado parece parada de 7 de setembro (ainda existe isso?).
E aquele monte de bundas? Das mais variadas cores e formatos, mas todas invadindo o meu campo de visão. Queria saber quem foi que associou o carnaval à mulher pelada. Acho que foi Joãsinho (com s??????) Trinta. O que tem a ver, desculpem o trocadilho, o cu com as calças? E os peitos-bolota? Nem que um terremoto abalasse todo o planeta, os peitos-bolota não se moveriam.
E os sambas que não são sambas? É uma batida acelerada (outro dia li que era assim pra dar tempo de atravessar toda a passarela sem estourar o tempo) que desafia o preparo físico do folião. Por falar em estourar o tempo, por que ao invés de colocar quatro mil cabeças correndo não aumentam o tempo do desfile e diminuem o ritmo? Vai demorar muito? Grande coisa. Faz mais um dia de desfile, vende mais ingressos, mais merchandising, mais talentosos comentaristas falando, falando, falando (porque pra ficar horas a fio comentando o incomentável é preciso ser muito bom).
E esse negócio de campeonato? É a síntese do espírito competitivo capitalista selvagem (pronto, baixou a professora de História) tomando conta da festa. Por que não desfilar pra fazer bonito, só pelo prazer de fazer bonito? Por que não desfilar para deleite das quatro mil pessoas que se dispõem a isso? Por que não desfilar para o deleite de quem se dispõe a assistir? Pra que esse negócio de jurado? Julgar o que? Qual o critério para tirar um décimo daqui e colocar ali? Pra que ser bi, tri, tetra? Deixa isso para os esportes. Ou sambista agora é atleta? Daqui a pouco vão querer botar as Escolas de São Paulo pra competir com as do Rio.
Saindo da Escola de Samba, passando a falar (mal) dos blocos. Não cabe na minha humilde inteligência que tantas pessoas tenham a satisfação de ficar levando pisada no pé, cotovelada nas costelas, passada de mão na bunda, fazer xixi em banheiro químico (quando tem), sentir o contato agradável de um monte de gente suada, melada, cheiro de cc, engarrafamento pra ir e pra voltar, bafo de cachaça, batedor de carteira… Pra mim, isso é o retrato da ante-sala do inferno!
Só de ver o Galo da Madrugada pela televisão, começo a passar mal.
Em Olinda, além de tudo, ainda é subindo e descendo ladeira. Não é bacana? Pisada, mão na bunda, cotovelada, inhaca, bexiga cheia, trombadinha e ladeira acima, ladeira abaixo, ladeira acima, ladeira abaixo. É inenarrável.
Salvador eu conheço in loco. Fui ver o carnaval, numa derradeira tentativa de incorporar o espírito momesco. É assustador. Dentro da corda, fora da corda, em cima da corda, qualquer lugar é péssimo (tirando um camarote regado, para o qual eu não fui convidada). Tive o prazer de dar de cara com a pipoca do Chiclete na contramão. Encostei num muro qual uma lagartixa, porque como diz o ditado: quem tem cu tem medo. Não posso deixar de confessar: a Timbalada (de longe e de cima) é uma coisa linda! Também gostei de ver a atuação da polícia baiana carregando meliantes pela cueca (o cara vai na pontinha do pé que nem uma bailarina) e passando pela multidão sem nem amassar a farda (é impressionante como eles conseguem abrir caminho em um lugar que não tem espaço nem pra passar vento). Fora isso, é droga pra todo lado, das lícitas às ilícitas. E aquela coisa nojenta de ficar beijando na boca de quarenta pessoas por dia.
Bem, isto é tudo o que me lembro de dizer acerca dessa grande festa popular que atrai milhares de estrangeiros em busca de turismo sexual, gays em busca de “homens sem preconceito” (li essa expressão no jornal), biscateiras em busca de divulgação gratuita de seu instrumento de trabalho, artistas e "celebridades" em busca de boca-livre, jornalistas em busca de uma fofoca quente ou de um bom escândalo e por fim o mais importante: o “povo brasileiro sofrido” em busca de quatro dias de alienação total.
Mas, pra quem gosta da coisa, nada de tristeza. Vem aí a Copa do Mundo. Mais uma oportunidade para sair mais cedo do trabalho, contratar a bateria de uma Escola de Samba, encher a cara, abraçar um suado e fedido ilustre desconhecido e curtir um carnavalzinho fora de época. Tomara que o Brasil chegue à final. (Chegou? Nem lembro.)

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  1. Esse texto foi e está ótimo!!!
    Muito bom!
    Bjns.

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