Fatinha

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Estacionando

In humor on 28/08/2011 at 11:11 AM

Querido Brógui,

Quando Cabral chegou ao Brasil, estava eu estacionando meu veículo na orla. Sempre perfeccionista, desde aquela época, já ralava as calotas no meio-fio. Faço questão de parar bem encostadinha, contando com a possibilidade de, naquela rua, passar um ônibus desgovernado, um caminhão de lixo ou uma bicicleta.

Outro detalhe significativo na minha técnica de estacionamento é que só sei parar em vagas apertadinhas, minúsculas. Vagas espaçosas me confundem, fico indo pra frente e pra trás mil vezes até conseguir entrar. Não sei se Freud explicaria isso, acho que ele diria que tenho algum problema sexual gravíssimo.

Vez por outra fatalidades acontecem, como dar uma encostadinha de leve no carro que está parado atrás do meu, mas nada grave. Por conta disso, sexta-feira, quando acabei de estacionar, havia dois professores com os olhos arregalados ao meu lado. Tinham sido avisados que haviam batido nos seus carros e que, além disso, estavam fugindo. Era eu a meliante. Da maneira como haviam dado a notícia, imaginaram que um ônibus havia arrancado a lateral dos carros e quase enfartaram. Eu, toda sorridente falei: “Dei uma encostadinha, sim, e não estava fugindo, estava arrumando o carro direitinho, aí encostei no carro da frente também, pra completar o serviço.” Entramos na escola os três, rindo. Ainda obtive autorização pra bater nos carros deles quantas vezes fossem necessárias, se isso me fazia feliz.

Estacionar na rua é um problema também por conta dos guardadores, que tenho vontade de metralhar. Tem uns tão cara de pau que esperam você suar pra enfiar o carro na vaga e depois aparecem pra tomar seu dinheiro. Se é um lugar ao qual você fatalmente irá retornar, convém dar o dinheiro – acompanhado de um sorriso – senão da próxima vez corre o risco – literalmente- de ver a lataria danificada. De qualquer maneira, antes de estacionar eu olho para todos os postes, todas as placas, pra ter certeza de que não estou cometendo nenhuma infração gravíssima. Ainda assim, já fui multada.

Numa das vezes, protagonizei uma cena antológica porque estacionei na frente de uma churrascaria num domingo em que fui fazer uma prova. Da porta da faculdade, de longe, vi um carro da Guarda Municipal parado ao lado do Kakinho. Com um frio na barriga, tive certeza de que havia sido multada e meu sangue ferveu. Apertei o passo, mas não foi o suficiente para interceptar os guardas. Havia carros estacionados em todas as calçadas do entorno, nas esquinas, em fila dupla, tripla, um em cima do outro, e o único multado havia sido o meu. Por que? Porque estava atrapalhando o movimento. Comecei um escândalo na porta da churrascaria, quando fui informada de que aquele espaço era privativo do estabelecimento. Depois, como naquela época não havia celular com câmera, peguei o Kako, voei de Bonsucesso até Vila Isabel pra pegar uma máquina fotográfica, voltei e parei o carro no mesmo lugar pra continuar o escândalo. Os manobristas mandavam eu sair e eu gritava, babando, que não ia sair, que eles mandassem os guardas que me multaram voltar pra me multar de novo. Veio a gerente e eu já estava do outro lado da rua, fotografando enlouquecida e berrando pra ela chamar a polícia, que eu só ia sair na marra. Só fui embora quando tinha tirado fotos de todos os postes da rua, de todos os carros estacionados irregularmente, da gerente, do manobrista, de todos os clientes da churrascaria, de todas as esquinas engarrafadas sem a presença de um guardinha sequer. Sabe o que aconteceu? Nada. A multa nunca veio, o que me leva a crer que os guardas que receberam um pichulé pra ir até lá especialmente pra multar o meu veículo foram alertados de que eu ia jogá-los no ventilador e preferiram deixar pra lá.

Bem, esse semana recebi outra multa por estacionamento irregular. Lá vou eu ter que recorrer pra provar que eu parei na tal da vaga certa, paguei por isso e se o Poder Público permite que eu estacione – e cobra -, como eu posso ter cometido infração? Então muda o nome pra vaga errada, certo?

Então hoje, a moral da história é: se você vir seu carro com arranhões vermelhos no para-choque, fui eu. Se você ouvir alguém no ralando pneu no meio-fio, sou eu. Se vir alguma louca fotografando postes, também sou eu. Mas pode fingir que não me conhece.

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Ao mestre passarinho

In humor on 14/08/2011 at 8:19 AM

Querido Brógui,
Domingo, sete horas da manhã. Adoro o silêncio do domingo, sete horas da manhã. Adoro o silêncio. A essa hora, só é quebrado pelos ruídos dos passarinhos na sua faina matinal, arrematando seus ninhos, buscando comida, água. Vê essas fotos? Na primeira, mal dá pra enxergar o ninho. Passarinho também gosta de privacidade – que eu invadi pra tirar essas duas fotos.
Pense no trabalho que deu pra fazer essa obra de engenharia. Usando só o bico, sem cimento, sem durepox, sem superbonder. Voando pra lá e pra cá, catando material de construção, tecendo, tomando conta pra ninguém mexer. Ele saiu do ninho quando me viu. Deu um rasante na minha cabeça e ficou olhando de longe. Não atrapalhei muito, alguns minutos que para ele devem ter sido sofridos. Imagine a agonia de ver um monstro com eu tão perto de sua casinha, casinha esta que já é a segunda – na última ventania o outro ninho caiu, com ovinhos e tudo. Mas o bichinho valente, determinado, levantou o bico e fez outro. Maior, mais bem acabado, mais protegido, mais firme.
Domingo, sete horas da manhã. Tão cedo e eu já aprendi tanta coisa com uma criaturinha pequenina!

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