Fatinha

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Com que roupa eu vou?

In humor on 17/10/2012 at 4:20 PM

Querido Brógui,

Há dias em que levanto da minha caminha cantando “com que roupa eu vou” e não, não é porque tenho muitas para vestir, também não é porque eu acordo feliz, nem tampouco porque moro em Vila Isabel, é porque eu separo o modelito à noite, antes de me deitar e quando amanhece, o tempo virou. Ou esquentou ou esfriou, ou tá ventando, ou tá chovendo. Aí, eu me sento à beira da cama, abro o armário e fico naquela atitude contemplativa, olhando para o seu conteúdo.

Esse vestido não dá pra usar, não depilei as pernas. Esse não dá, é comprido mas não tem mangas e eu trabalho no ar condicionado. Calça comprida? Tá calor demais. Essa saia tem que usar com aquela blusa que está pra lavar. Esse outro vestido pede uma meia fina, mas tá calor. Esse tá bom, mas tem que usar com salto alto e hoje eu só chego em casa depois das dez da noite e mais de doze horas de salto, não rola. Esse coletinho fica bom, mas tá faltando um botão. Cadê minha calça jeans branca? Não, hoje vou pra escola à noite e lá é tudo imundo. Já sei! A saia jeans longa! Não, fiquei parecendo uma crente.

Difícil. Os minutos passando e eu colocando e tirando roupa, a pilha crescendo em cima da cama. Tenho que guardar tudo antes de sair. Enfio a calça no cabide, cai a outra. O vestido idem. Onde foi parar o cabide dessa saia? Deixo tudo como está, vou calçar a sapatilha que está bem ao meu alcance. Quem guardou minha sapatilha? Não é essa, não é essa, não é essa… Cadê a maldita sapatilha? Achei. Tá machucando no calcanhar. Esparadrapo. Acabou, tenho que passar na farmácia ainda hoje. Bandeide tem, com a cara das Meninas Superpoderosas. Vai esse mesmo.

Ih! A unha lascou. Lixa de unha… Pronto. Saiu uma pontinha de esmalte. Vou colocar o vidrinho na bolsa, quando eu chegar no trabalho retoco. Bolsa! Que bolsa? Essa tá muito verde, essa tá muito vermelha, essa tá boa. Pego tudo da bolsa de ontem e jogo na bolsa de hoje. A conta do celular! Cadê o boleto? Ok, tudo certo, a última olhadinha no espelho.

Tô horrível! Gorda! Não sei onde estava com a cabeça quando comprei essa roupa. Tiro tudo de novo, olho pro relógio, corro pro banheiro para fazer a maquiagem. Reboco feito, olhar contemplativo, guarda-roupa aberto.

Hoje cheguei atrasada.

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Educação funciona sim.

In humor on 08/10/2012 at 10:08 AM

Querido Brógui,

Ser professora não é de todo uma vida de derrotas. Por várias vezes pensei acerca disso e hoje resolvi compartilhar com você minhas ideias. Metade da minha vida passei dentro de uma sala de aula e você conhece boa parte das situações estressantes, as quais eu atribuo meus precocemente cabelos grisalhos. Entretanto há as vitórias, os alunos com os quais tropeço pela rua e me contam suas histórias de sucesso, de avanço e melhoria na vida. E, a cada esbarrão, fico feliz em ver que fazem questão de falar comigo, me abraçar, dar notícias e vejo a alegria nos seus olhos ao rever uma pessoa que faz parte de um passado que contém boas lembranças.

Já passaram por mim centenas de alunos, a maior parte deles nem sei que fim levou. Outra parte sei, e não foi um fim feliz – muitos até já morreram. Com outra parte ainda mantenho contatos esporádicos, dentro das possibilidades que nossa vida atribulada permite. Ontem, após cumprir meu dever cívico, me encaminhava para casa quando escutei uma moça gritando o meu nome. Parei, olhei e a vi atravessando a rua correndo, arrastando uma criança pela mão. Não a reconheci, afinal, quando a vi pela última vez ela tinha uns dezoito anos, no dia do seu casamento, do qual fui madrinha. Não tá me conhecendo? Eliane! Conheci a voz e me veio a lembrança dela, uma mocinha ainda, a melhor aluna da sala, numa turma de adolescentes completamente ensandecidos que tive lá no Morro do Pau da Bandeira.

Eliane me ajudou muito com aquela turma de loucos. Ela era a representante da turma e minha aliada na tarefa de mantê-los vivos, dentro da sala, quando possível, sentados. Morava no morro e seu sonho era sair de lá e ir pro asfalto. Conseguiu. Acabou os estudos, fez curso técnico, trabalha na equipe de enfermagem de dois hospitais, está casada há quatorze anos com o mesmo marido e tem dois filhos. A menina está no CAP da UERJ e o menino no Pedro II – bons colégios, pra quem não conhece. Só tiram nota acima de oito, como ela fez questão de me informar. Fala pra ele, Fátima, fala que eu tirava dez em Português! Fala que eu era atleta medalhista! Fala que eu sabia Matemática e meu caderno era o mais bonito da sala! E eu repetia o que ela dizia, enquanto ela passava as mãos na cabeça do seu filho e seus olhos brilhavam de orgulho. Ganhei meu dia com esse encontro.

A vida deles é mais difícil? Sem dúvida. Eles têm que fazer um esforço extra? Sem dúvida. Têm menos oportunidades? Sem dúvida. Não obstante, brigam pelo que querem, suam a camisa, enfrentam as adversidades com determinação e, afinal, conquistam. Assim são meus alunos que provam que há saída para a miséria, que estudar vale à pena, que as vitórias sofridas são as mais gostosas. Às vezes demoram um pouquinho mais, mas não desistem.

Michelle é professora e está classificada para a segunda fase da UERJ, Jorge trabalha na Petrobrás, Sandra faz faculdade de moda, Érika, engenharia na PUC, Marquinhos é estoquista-chefe de uma loja, Neide vai se formar esse ano, Léa está cursando enfermagem, Waltinho começou varrendo o chão da ótica e agora é gerente comercial. São os que encontrei mais recentemente, mas há outros. Não tantos quanto eu gostaria, mas há. Pessoas maravilhosas que traçaram seu destino, marcaram uma reta no chão e seguiram.

Esse post é uma homenagem minha aos meus alunos guerreiros, que acreditam na educação como alavanca para um futuro melhor. Homenageio também meus colegas professores. Não salvamos todas as almas perdidas – até porque há aquelas que não querem ser salvas-, mas as que salvamos compensam todos os cabelos brancos.

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