Fatinha

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Telefone na geladeira

In Sem categoria on 20/11/2008 at 9:46 AM

Querido Brógui

Adoro uma frase feita, fazer citações. Dizem por aí que quem gosta disso é porque não tem capacidade de criar suas próprias falas, então repete o que os outros dizem. Sei não. Acho desnecessário tentar criar o que já foi criado e, com perfeição. Imagina ter que inventar a roda todos os dias? Sendo assim, se alguém já disse exatamente o que eu penso, porque me dar ao trabalho de ser original?
Mas, vez por outra eu tenho meus rompantes de criatividade e solto umas pérolas realmente interessantes para expressar o que sinto. Ontem, conversando com uma amiga pelo telefone, falei pra ela: “Eu já estou guardando telefone na geladeira.”
Pois é. Depois de sair do hospital, perder a chave do carro dentro do carro, morder a bochecha comendo uma bala, o ápice do desconcatenamento mental foi guardar o telefone na geladeira.
Meu pai está internado há doze dias (tá tudo bem, dentro do possível). Estou há doze dias sem comer e sem dormir decentemente. Comprei uma Coca Light no caminho de casa pra acompanhar um resto de pizza comprada no domingo. No trajeto vim ruminando toda a minha raiva contra uma pessoa irritante cuja única missão na vida é encher o saco dos outros. Vim decidida a ligar pra minha amiga a fim de pormos um ponto final na crise. O que fiz quando cheguei em casa? Peguei o telefone sem fio, abri a geladeira, tirei a pizza velha lá de dentro, guardei nela a latinha de refrigerante com o telefone e depois disso, fiquei uns quinze minutos procurando-o.
Bem, podia ter sido pior. Eu poderia ter colocado o telefone dentro do forno, junto com a pizza passada.

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O sofazinho

In Sem categoria on 11/11/2008 at 11:22 AM

Querido Brógui

Não adianta mesmo. Eu não tenho jeito, graças a Deus, e consigo rir de situações nada risíveis. Tenho tido muito tempo para pensar, trancafiada num quarto de hospital fazendo o turno do dia. Como para fazer humor é necessária uma boa dose de mau humor, nada como uma situação desagradável para servir de inspiração. Eu sei, eu sei que eu disse ontem que não estava a fim de fazer gracinha, mas isso foi ontem.
Sentadinha no maldito sofazinho que fica no quarto do hospital, tentando me acomodar naquele objeto produtor de desvio de coluna, fiquei matutando acerca do por quê de, em todos os hospitais haver sempre o mesmo tipo de sofá. Quer dizer, em todos os que conheço (não muitos, por sorte). O treco é duro, pequeno, baixo, sem braço, um horror. Por que? Além disso, o sofá fica estrategicamente situado na frente da porta, ou seja, nem pense em se deitar, a menos que queira levar uma “portada” na cabeça.
Depois de muito meditar acerca de tão importante questão, concluí que o desconforto é proposital. Afinal, o acompanhante não está ali de férias, está para acompanhar o paciente. De acordo com essa lógica maligna, se o acompanhante ficar muito confortável, vai dormir a noite toda, o paciente vai querer alguma coisa, vai chamar, não vai ser ouvido e terá que apertar a tal da campainha para chamar a enfermagem. Conseqüência: o plantonista terá que se deslocar até o quarto para fazer o serviço para o qual é pago ao invés de esse serviço ser prestado gratuitamente pelo familiar. Faz sentido.

Depois da queda, o tombo

In Sem categoria on 10/11/2008 at 9:54 PM

Querido Brógui

Estou fora do ar por esses dias por conta da queda que meu pai sofreu com a conseqüente fratura do fêmur. Não estou muito no clima de fazer gracinhas. Você entende, não? Tá muito difícil vê-lo daquele jeito, deitado em um leito de hospital, morrendo de vergonha por não conseguir dar conta dele mesmo, pedindo desculpas a todo o momento por estar dando trabalho, sentindo-se tão impotente. A coisa mais marcante que ele me disse nesses últimos dias foi: “Minha filha, a velhice é uma merda!” Eu lhe respondi: “Só há uma alternativa para a velhice. E essa, ninguém quer.”

Nas trevas da ignorância (e sem lanterna)

In Sem categoria on 05/11/2008 at 7:26 PM

Querido Brógui

Ontem fiz um programa super-ultra-mega cabeça: fui ao lançamento do livro de uma grande amiga, conquistada nos idos tempos da faculdade de História, isso há aproximadamente dois milênios atrás. Diferentemente de mim, ela dedicou-se à sua carreira de pesquisadora, enquanto eu enveredei pelos caminhos da sala de aula, depois faculdade de Direito, depois concursanda eterna, depois blogueira… Um dia eu descubro o que eu quero ser quando crescer.
Voltando à vaca fria, há muito tempo não fica tão clara a minha ignorância na matéria. É, eu sei que sou professora de História e isso deveria significar um certo domínio da matéria. No entanto, o fato é que, apesar de isso ser mais ou menos implícito, está a léguas de distância da realidade. O que eu sei é o basiquinho, pílulas de conhecimento, o suficiente pra encarar meu alunado, que, cá pra nós, é bem pouco exigente e bem pouco capaz (infelizmente).
Uma vez, um amigo disse que dar aulas em escola pública era um processo de emburrecimento. Não concordei na época, porque ainda dava aulas “cuspe só”, não passava matéria no quadro, me recusava a dar exercícios de decoreba, só aplicava prova discursiva, deixava metade dos alunos de recuperação e a outra metade eu reprovava. Eu acreditava que eles tinham que se virar pra estudar e aprender, como eu sempre fiz. Com o passar do tempo, caí na real. Não é assim que funciona. Comecei a selecionar criteriosamente o mínimo necessário a ser ensinado, mínimo esse que diminui a cada ano e ainda assim é muita coisa. Com isso, parei de estudar, parei de me aprofundar e parei de saber História. É isso.
Voltando à vaca quase congelada, em determinado momento, a conversa estava acontecendo e eu ali, entendendo nada, fazendo cara de inteligente, evitando falar besteira ou perguntar quem diabos era fulano de tal. Fui dar uma voltinha na livraria, li umas revistas em quadrinho, folheei um livro com fotografias de todos os cartazes de filmes da década de trinta, um pedaço do livro do Ariano Suassuna, outro de Fernando Pessoa, voltei para a rodinha e, corajosamente, encarei minha ignorância. Foi duro.
A propósito: o nome do livro dela é “Tempo negro, temperatura sufocante. Estado e sociedade no Brasil do AI-5”. Não li ainda, nem comprei, porque fui desprevenida (só eu mesmo pra ir ao lançamento de um livro sem dinheiro pra comprar o tal…), mas pretendo me livrar das trevas da ignorância assim que possível.
E pra deixar claro: eu sei o que foi o AI-5, tá legal? Ignorância tem limites.

PS: esse texto vai para Jacqueline, a minha musa da semana.

Ô, preguiça!

In Sem categoria on 03/11/2008 at 10:22 PM

Querido Brógui

Tenho andado com preguiça de escrever. Estava meio que me sentindo culpada por isso, afinal de contas, assim como a maioria da pessoas, fui educada para pensar que preguiça é uma coisa feia. Isso ficou tão arraigado em mim que até nos domingos, o dia universal da preguiça, eu levanto cedo para não fazer nada porque tenho a sensação de que não fazer nada de pé é menos ruim do que não fazer nada deitadinha embaixo dos lençóis.
Então, hoje estou assumindo publicamente meu lado preguiçoso, aquele que quer que o mundo acabe em barranco para poder morrer encostado. Não sem culpa, é claro. Anos de terapia ainda não conseguiram me livrar desse sentimento cada vez que sucumbo ao doce far niente.
Muito a contragosto, liguei o computador pra dar uma olhadinha na minha caixa de entrada. Vixe! Coisa que não acaba mais, deu até vontade de chorar. Deixei isso pra amanhã, no melhor estilo Scarlet O’Hara e fui cair na página do Mário Quintana, de quem eu sou fã. Sabe o que eu achei? A seguinte frase: “A preguiça é a mãe do progresso. Se o homem não tivesse preguiça de caminhar, não teria inventado a roda.”
Fiquei aliviada. Se Mário Quintana que é Mário Quintana vê algum valor na preguiça, não sou tão má pessoa assim.

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