Fatinha

Contando derrota

In humor on 21/03/2022 at 3:07 PM

Querido Brógui,

Creio que devemos redefinir os períodos históricos. A.C. passa a significar antes do Covid e D.C. , depois do Covid. Pelo menos no que me diz respeito, parece que o tempo meio que estacionou e agora que estou mais ou menos tentando colocar umas coisinhas em dia. Entre elas, a árdua tarefa de sair do caritó.

Ano passado, andei investindo no namoro on line, que defendi outrora. Agora, tenho cá minhas dúvidas, principalmente depois que vi aquele filme candidato ao Oscar. De todo modo, foi bom pra caramba, me diverti bastante. O problema todo é que não tive coragem de sair do virtual para o real. Eu, hein! Me arriscar a pegar uma pereba mortal por causa de um inocente encontro? Então, meus namorados foram se perdendo por aí. Até sexta-feira.

Recebi uma mensagem me convidando para sair. Estava de bobeira, menos paranóica quanto a ir para a rua, o fulano me parecia divertido. Por que não? Bora curtir. Com toda a cautela necessária, perto de casa, lugar público, etc.

Me arrumei toda. Vesti aquele vestidinho que ainda estava com a etiqueta, arrumei os cabelos, maquiagem, duas gotinhas de Chanel, unhas, tudo no esquema.

Do outro lado da rua, quando vi o boteco xexelento que o fulano estava sentado, percebi que havia caído no conto do vigário. Quando o fulano se levantou e vi bermuda, chinelo e camiseta, quase passei direto, mas ele me viu. Inocentemente avisei que estava com uma bolsa rosa choque e fui avistada. Essa bendita educação que me foi dada não me permitiu dar um perdido.

Daí pra frente, foi ladeira abaixo. O cara já estava meio que ébrio. Eu pedi minha Coca-Cola Light. Ele perguntou se eu queria comer alguma coisa. Eu olhei para dentro do estabelecimento – sim, estávamos na calçada, um calor do caraio – e não tive coragem de comer nada do que saísse daquela cozinha que não deve receber uma visita da vigilância sanitária desde que o Barão de Drummond era vivo.

E por falar em calor… O glamour acabou em dois minutos e meio. O cabelo virou rabo de cavalo, a maquiagem foi pro saco e o vestidinho colou no meu corpinho. A Coca-Cola começou a ferver assim que caiu naquele copo encardido.

O fulano é conversador, mas até calado falava besteira. Ouvi alguns relatos interessantes de como perdeu um trabalho porque era numa fazenda que tinha alambiques e ele provou de todas as cachaças que havia e ficou bêbado, o quanto ele tomava de Rebite pra dirigir seu caminhão por trinta horas sem parar, que tinha ido ao casamento do primo de bermuda e chinelos. Nesse nível. Eu, atentamente, ouvia e tentava ver se alguma coisa passava na peneira. Não passou nada.

Como tudo sempre pode ser pior do que o pior dos meus pesadelos, ele é contra a vacina, apesar de pego Covid duas vezes (e não morreu, o desgraçado) e morar com a mãe idosa. Até tentei discutir o assunto mas deu preguiça depois que ele disse que teve cinco ataques cardíacos depois de tomar a primeira dose. Perguntei eu: não seria taquicardia? “Isso. É mesma coisa.”

Onde fui amarrar minha égua, pensei.

Nesse ínterim, vi um ratazana criada com toddynho passar galantemente pela calçada e o fulano comentou: Normal.

Agora, a cerejinha do bolo foi defender o Espírito Sem Luz, aquele cujo nome não se deve pronunciar, o Sete Peles. Rapidamente, saquei do celular e mandei uma mensagem pra minha comadre com a seguinte palavra: HELP. Ela ligou imediatamente e eu dei a desculpa de que precisava ir pra casa.

Tão cedo? Vai me deixar aqui sozinho? Depois a gente marca outra coisa.

Vamos sim, quando nevar no Rio de Janeiro.

INDIGNAÇÃO

In humor on 04/01/2022 at 8:45 PM

Querido Brógui,

Aqui é um lugar que uso para me divertir, contar coisas sobre mim de maneira engraçada, ainda que sejam coisas sérias. É assim que tento ver a vida. Procuro achar graça e rir de fratura exposta, como dizem por aí. Às vezes não dá e, neste caso, prefiro não escrever.

No entanto, hoje vou abrir uma exceção. Vou contar pra você o drama que estou vivendo, só para ver se paro de sentir o que estou sentindo: raiva. Sentir raiva não é legal, não faz bem, me faz sentir dores físicas (começando pela minha ATM, terminando pelas minhas têmporas, passando pelo meu trapézio).

Indignação foi o título que escolhi. Renomear o sentimento pode ser que funcione. Estou aqui pensando em você e tentando substituir a raiva pela indignação. Tô tentando aceitar a imbelicidade, o nonsense, o absurdo, o além da imaginação que é a máquina estatal. Não falo de burocracia, falo de burrocracia. Falo de emperramento, de excesso de exigências esquizofrênicas, de pessoas trabalhando sem ter a mínima ideia do que estão fazendo, seguindo um manual de instruções como uma bula de remédio, sem pensar, sem questionar. Ninguém para pra dizer: “Caraio! Eu não vou perder o meu tempo com uma coisa que já foi feita.”. Como assim? Vou explicar.

Tenho uma Licença Especial para gozar. LE, como é conhecida, é um direito garantido ao servidor público de, a cada cinco anos, fazer jus a três meses de licença remunerada. Nem todo servidor tem isso, mas no Rio de Janeiro ainda temos, embora os nobres membros do Poder Legislativo e Executivo (que não são servidores, diga-se de passagem), estejam trabalhando arduamente para acabar com este direito (você sabe, né? a culpa da falência do Estado do Rio de Janeiro é do servidor público, não tem nada a ver com roubalheira e má administração). Então, são 1.825 dias de serviço – porque são contados em dias.

Há algumas regras, obviamente. Não pode ter faltas sem abono, senão perde a contagem e começa do zero. Também não pode ter ficado de licença médica por mais de noventa dias (seguidos ou não). Os dias em que ficou afastado porque estava doente são descontados (afinal, você fez aquela cirurgia de emergência porque quis). Também zera o contador e começa tudo de novo. Não pode ter faltas por greve (por que será?).

Precisa ainda contar com o tal do nada a opor da sua chefia imediata. Se o fulano achar que você é indispensável ao bom andamento do serviço, ele coloca isto no processo e você fica com cara de bunda, se amaldiçoando por ser tão bom no que faz, pela sua competência. Tão amado, um profissional insubstituível. Você olha bem pra cara do seu chefe, sem palavras, e jura que, daqui pra frente, você vai ser um merda. Ele vai se arrepender de ter sido tão filho de uma ronca e fuça e um dia desejará com todas as forças vê-lo pelas costas. A propósito, já vi casos assim. Não é piada, o servidor que trabalha é punido por ser exemplar e o merda ganha de presente uma LE sem nem ter pedido.

Até aqui tudo bem? Tá acompanhando? Noves fora você concordar ou não com a lei, o fato é que ela existe. Então vamos aos fatos.

Tudo começou em 2016. Veja bem: falo de um processo iniciado há cinco anos. Papel pra lá, papel pra cá (os processos ainda eram físicos), junta documento, cai em exigência, você junta outro, fica meses parado em cima da mesa de alguém, ou embaixo (também já soube de casos assim. processos escorando o pé da mesa bamba).

Depois de dois anos, foi publicado no Diário Oficial a concessão da LE. Posso então gozar do meu direito adquirido? Não, sua idiota. Só quando você estiver para se aposentar. Lembra daquela regrinha da necessidade de serviço? Pois é. O martírio continua, até que, finalmente, chega o momento de pegar sua carta de alforria e ir pra praia dia de semana. Tempo de contribuição, ok. Idade, quase lá. Soma tudo, dá oitenta. É. Tem esta conta pra fazer.

Só que, como todo castigo pra corno é pouco, meu processo sumiu. Vou repetir: meu processo, aquele que demorou dois anos pra ficar no esquema, sumiu. Sumiu? É. Devia estar aqui, arquivado. Não consigo localizar.

Fudeu.

Lembrei, depois de muito choro e ranger de dentes, que nem tudo estava perdido. Afinal, a concessão da LE havia sido publicada. Direito adquirido, certo? É só pedir para marcarem a data, certo? Errado. Como o processo físico não foi encontrado e ele tem um número, EU NÃO POSSO FAZER ESTE PEDIDO.

É isso mesmo que você leu. A publicação no DO, com meu nome, minha matrícula, minha identidade funcional, não vale de porra nenhuma PORQUE O PROCESSO FOI EXTRAVIADO. O importante é a porra do número do processo, é aquela porra daquela papelada xexelenta que deve ter virado comida de gambá, ou ninho de gambá ou papel higiênico de gambá (é, soube que o meu local de trabalho foi tomado pelos gambás no ano de 2019). É isso! Encontramos os culpados pela extravio do processo. A porra do gambá.

Dito isto, concluo dizendo que tive que abrir novo processo, juntar toda a documentação de novo, cumprir todas as exigências de novo (é. o processo voltou por causa do mesmo documento que faltava e eu havia providenciado há três anos. inacreditável. não é que os descerebrados seguem direitinho o manual de instruções sem pular uma vírgula?). Estou vivendo um dejavu. Ou mais modernamente, um bug no sistema.

Mas, Brógui, por que você não argumentou, tentou convencer os gênios que era uma burrice siderúrgica fazer tudo de novo? Por que não esfregou o Diário Oficial na cara daquela gente? Por que não fez um escândalo? Chamou a polícia, denunciou os gambás do mal?

Eu tentei, Broguinho. Juro que eu tentei. Mas contra a estupidez não há argumento. Contra o manual de instruções não há argumento. Contra a má vontade, não há argumento. Fazer escãndalo? Pior. Aí é que os dragões da incompetência não vão fazer o que quero mesmo. Abrir inquérito para apurar a responsabilidade dos gambás não fará com que eu consiga minha LE.

Resta-me entubar.

E providenciar de novo o maldito documento, é claro.

PS: continuo com raiva

O barquinho

In humor on 29/12/2021 at 10:32 AM

Querido Brógui,

Já escolhi a metáfora de hoje. Adoro metáforas. Jesus ensinava por parábolas, eu prefiro as metáforas. É isso mesmo? Estou me comparando a Jesus? A megalomania bateu à minha porta? Isso é grave. Em tempos de messianismo, todo cuidado é pouco. Vai que eu surto e resolvo iniciar uma seita ou me candidatar à presidência? Ou pior: vai que você resolve aceitar e concordar com tudo o que eu digo, sem questionar, como se fossem verdades absolutas? Vamos cortar logo o mal pela raiz. Eu não sou o Messias, não atingi a Iluminação, não tenho a menos pretensão de ser governante e tampouco sei como a vida funciona. Sou um mero aprendiz que gosta de compartilhar seus aprendizados.

Vejo a vida como um rio. Tem a nascente, corre corre corre e deságua no mar. Não para, não volta, é um fluxo contínuo do início ao fim. E tem você, com seu barquinho. Ou iate. Ou canoa. Escolhe aí. Eu gosto de barquinhos.

Nascemos, ganhamos de presente um barquinho e somos colocados no rio. Começa aí a grande aventura.

Tem momentos tranquilinhos, que dá até pra dar um mergulho e relaxar. Tem momentos turbulentos, como quando você dá de cara com uma correnteza e é preciso tomar cuidado para o barquinho não virar (sugiro sempre usar um colete salva-vidas). Dependendo da força da água, pode até perder o remo. Tudo bem. Dá uma paradinha numa lojinha de conveniência e compra outro.

Há sempre a possibilidade de uma queda d’água, com fortes emoções, mas tudo bem, o importante é não entrar em pânico e se isso acontecer, peça ajuda. Inspire, expire e não pire.

Em determinados pontos, há vários caminhos a seguir. Há as escolhas que vão determinar o rumo seguinte, que vão determinar o rumo seguinte e que vão determinar o rumo seguinte. Nessas horas, cabe uma ponderação, se possível. Não sendo possível (às vezes não dá tempo de pensar muito), opte pelo que lhe parece melhor naquele instante. Se der merda, não caia na cilada de ficar remoendo o ” e se”. E se eu tivesse pego o outro caminho, será que seria melhor ou mais fácil ou mais rápido? Bobagem. Perda de energia. Você não pode voltar. Já era. Solte um putaquepariu e aceite docemente as consequências. Aprenda. Culpa, arrependimento, remorso não cabem no barquinho. Pesam demais, fica difícil navegar assim.

Pilotando seu barquinho, pare de vez em quando na margem pra descansar. Limpe seu barquinho, jogue fora o entulho que acumulou, guarde somente o necessário, evite a tentação de comprar um maior pra caber mais coisas. Como eu já disse, o peso é um inimigo. Descansou? Volte para o rio.

O seu navegar não precisa ser solitário (a menos que queira) Pode levar alguém junto, dividindo o espaço do barquinho, ou pode navegar em comboio, cada um no seu, cada um no seu ritmo, cada um livre para pegar outra rota. Pode marcar de encontrar em algum lugar, ou daqui a alguns dias. Programar encontros e despedidas. Pode pegar uma carona, se estiver muito cansado (lembre de oferecer carona também).

Uma última recomendação: cuide do rio, cuide do seu barquinho, cuide-se.

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