Fatinha

INDIGNAÇÃO

In humor on 04/01/2022 at 8:45 PM

Querido Brógui,

Aqui é um lugar que uso para me divertir, contar coisas sobre mim de maneira engraçada, ainda que sejam coisas sérias. É assim que tento ver a vida. Procuro achar graça e rir de fratura exposta, como dizem por aí. Às vezes não dá e, neste caso, prefiro não escrever.

No entanto, hoje vou abrir uma exceção. Vou contar pra você o drama que estou vivendo, só para ver se paro de sentir o que estou sentindo: raiva. Sentir raiva não é legal, não faz bem, me faz sentir dores físicas (começando pela minha ATM, terminando pelas minhas têmporas, passando pelo meu trapézio).

Indignação foi o título que escolhi. Renomear o sentimento pode ser que funcione. Estou aqui pensando em você e tentando substituir a raiva pela indignação. Tô tentando aceitar a imbelicidade, o nonsense, o absurdo, o além da imaginação que é a máquina estatal. Não falo de burocracia, falo de burrocracia. Falo de emperramento, de excesso de exigências esquizofrênicas, de pessoas trabalhando sem ter a mínima ideia do que estão fazendo, seguindo um manual de instruções como uma bula de remédio, sem pensar, sem questionar. Ninguém para pra dizer: “Caraio! Eu não vou perder o meu tempo com uma coisa que já foi feita.”. Como assim? Vou explicar.

Tenho uma Licença Especial para gozar. LE, como é conhecida, é um direito garantido ao servidor público de, a cada cinco anos, fazer jus a três meses de licença remunerada. Nem todo servidor tem isso, mas no Rio de Janeiro ainda temos, embora os nobres membros do Poder Legislativo e Executivo (que não são servidores, diga-se de passagem), estejam trabalhando arduamente para acabar com este direito (você sabe, né? a culpa da falência do Estado do Rio de Janeiro é do servidor público, não tem nada a ver com roubalheira e má administração). Então, são 1.825 dias de serviço – porque são contados em dias.

Há algumas regras, obviamente. Não pode ter faltas sem abono, senão perde a contagem e começa do zero. Também não pode ter ficado de licença médica por mais de noventa dias (seguidos ou não). Os dias em que ficou afastado porque estava doente são descontados (afinal, você fez aquela cirurgia de emergência porque quis). Também zera o contador e começa tudo de novo. Não pode ter faltas por greve (por que será?).

Precisa ainda contar com o tal do nada a opor da sua chefia imediata. Se o fulano achar que você é indispensável ao bom andamento do serviço, ele coloca isto no processo e você fica com cara de bunda, se amaldiçoando por ser tão bom no que faz, pela sua competência. Tão amado, um profissional insubstituível. Você olha bem pra cara do seu chefe, sem palavras, e jura que, daqui pra frente, você vai ser um merda. Ele vai se arrepender de ter sido tão filho de uma ronca e fuça e um dia desejará com todas as forças vê-lo pelas costas. A propósito, já vi casos assim. Não é piada, o servidor que trabalha é punido por ser exemplar e o merda ganha de presente uma LE sem nem ter pedido.

Até aqui tudo bem? Tá acompanhando? Noves fora você concordar ou não com a lei, o fato é que ela existe. Então vamos aos fatos.

Tudo começou em 2016. Veja bem: falo de um processo iniciado há cinco anos. Papel pra lá, papel pra cá (os processos ainda eram físicos), junta documento, cai em exigência, você junta outro, fica meses parado em cima da mesa de alguém, ou embaixo (também já soube de casos assim. processos escorando o pé da mesa bamba).

Depois de dois anos, foi publicado no Diário Oficial a concessão da LE. Posso então gozar do meu direito adquirido? Não, sua idiota. Só quando você estiver para se aposentar. Lembra daquela regrinha da necessidade de serviço? Pois é. O martírio continua, até que, finalmente, chega o momento de pegar sua carta de alforria e ir pra praia dia de semana. Tempo de contribuição, ok. Idade, quase lá. Soma tudo, dá oitenta. É. Tem esta conta pra fazer.

Só que, como todo castigo pra corno é pouco, meu processo sumiu. Vou repetir: meu processo, aquele que demorou dois anos pra ficar no esquema, sumiu. Sumiu? É. Devia estar aqui, arquivado. Não consigo localizar.

Fudeu.

Lembrei, depois de muito choro e ranger de dentes, que nem tudo estava perdido. Afinal, a concessão da LE havia sido publicada. Direito adquirido, certo? É só pedir para marcarem a data, certo? Errado. Como o processo físico não foi encontrado e ele tem um número, EU NÃO POSSO FAZER ESTE PEDIDO.

É isso mesmo que você leu. A publicação no DO, com meu nome, minha matrícula, minha identidade funcional, não vale de porra nenhuma PORQUE O PROCESSO FOI EXTRAVIADO. O importante é a porra do número do processo, é aquela porra daquela papelada xexelenta que deve ter virado comida de gambá, ou ninho de gambá ou papel higiênico de gambá (é, soube que o meu local de trabalho foi tomado pelos gambás no ano de 2019). É isso! Encontramos os culpados pela extravio do processo. A porra do gambá.

Dito isto, concluo dizendo que tive que abrir novo processo, juntar toda a documentação de novo, cumprir todas as exigências de novo (é. o processo voltou por causa do mesmo documento que faltava e eu havia providenciado há três anos. inacreditável. não é que os descerebrados seguem direitinho o manual de instruções sem pular uma vírgula?). Estou vivendo um dejavu. Ou mais modernamente, um bug no sistema.

Mas, Brógui, por que você não argumentou, tentou convencer os gênios que era uma burrice siderúrgica fazer tudo de novo? Por que não esfregou o Diário Oficial na cara daquela gente? Por que não fez um escândalo? Chamou a polícia, denunciou os gambás do mal?

Eu tentei, Broguinho. Juro que eu tentei. Mas contra a estupidez não há argumento. Contra o manual de instruções não há argumento. Contra a má vontade, não há argumento. Fazer escãndalo? Pior. Aí é que os dragões da incompetência não vão fazer o que quero mesmo. Abrir inquérito para apurar a responsabilidade dos gambás não fará com que eu consiga minha LE.

Resta-me entubar.

E providenciar de novo o maldito documento, é claro.

PS: continuo com raiva

O barquinho

In humor on 29/12/2021 at 10:32 AM

Querido Brógui,

Já escolhi a metáfora de hoje. Adoro metáforas. Jesus ensinava por parábolas, eu prefiro as metáforas. É isso mesmo? Estou me comparando a Jesus? A megalomania bateu à minha porta? Isso é grave. Em tempos de messianismo, todo cuidado é pouco. Vai que eu surto e resolvo iniciar uma seita ou me candidatar à presidência? Ou pior: vai que você resolve aceitar e concordar com tudo o que eu digo, sem questionar, como se fossem verdades absolutas? Vamos cortar logo o mal pela raiz. Eu não sou o Messias, não atingi a Iluminação, não tenho a menos pretensão de ser governante e tampouco sei como a vida funciona. Sou um mero aprendiz que gosta de compartilhar seus aprendizados.

Vejo a vida como um rio. Tem a nascente, corre corre corre e deságua no mar. Não para, não volta, é um fluxo contínuo do início ao fim. E tem você, com seu barquinho. Ou iate. Ou canoa. Escolhe aí. Eu gosto de barquinhos.

Nascemos, ganhamos de presente um barquinho e somos colocados no rio. Começa aí a grande aventura.

Tem momentos tranquilinhos, que dá até pra dar um mergulho e relaxar. Tem momentos turbulentos, como quando você dá de cara com uma correnteza e é preciso tomar cuidado para o barquinho não virar (sugiro sempre usar um colete salva-vidas). Dependendo da força da água, pode até perder o remo. Tudo bem. Dá uma paradinha numa lojinha de conveniência e compra outro.

Há sempre a possibilidade de uma queda d’água, com fortes emoções, mas tudo bem, o importante é não entrar em pânico e se isso acontecer, peça ajuda. Inspire, expire e não pire.

Em determinados pontos, há vários caminhos a seguir. Há as escolhas que vão determinar o rumo seguinte, que vão determinar o rumo seguinte e que vão determinar o rumo seguinte. Nessas horas, cabe uma ponderação, se possível. Não sendo possível (às vezes não dá tempo de pensar muito), opte pelo que lhe parece melhor naquele instante. Se der merda, não caia na cilada de ficar remoendo o ” e se”. E se eu tivesse pego o outro caminho, será que seria melhor ou mais fácil ou mais rápido? Bobagem. Perda de energia. Você não pode voltar. Já era. Solte um putaquepariu e aceite docemente as consequências. Aprenda. Culpa, arrependimento, remorso não cabem no barquinho. Pesam demais, fica difícil navegar assim.

Pilotando seu barquinho, pare de vez em quando na margem pra descansar. Limpe seu barquinho, jogue fora o entulho que acumulou, guarde somente o necessário, evite a tentação de comprar um maior pra caber mais coisas. Como eu já disse, o peso é um inimigo. Descansou? Volte para o rio.

O seu navegar não precisa ser solitário (a menos que queira) Pode levar alguém junto, dividindo o espaço do barquinho, ou pode navegar em comboio, cada um no seu, cada um no seu ritmo, cada um livre para pegar outra rota. Pode marcar de encontrar em algum lugar, ou daqui a alguns dias. Programar encontros e despedidas. Pode pegar uma carona, se estiver muito cansado (lembre de oferecer carona também).

Uma última recomendação: cuide do rio, cuide do seu barquinho, cuide-se.

Edição especial de Ano Novo

In humor on 25/12/2021 at 11:55 AM

Querido Brógui,

Estava eu varrendo o quintal, às 6 horas da manhã, meditando. É. Tem gente que reflete meditando em posição de lótus (não sei como conseguem isso com as pernas dormentes e dores lombares), tem gente que o faz sentado horas a fio na beira de um lago tentando pescar só pra depois devolver o pobre peixinho para a água (nunca entendi muito bem este conceito de pesca recreativa) e eu, fazendo serviço pesado.

Uma das minhas descobertas sensacionais do ano foi que esfregar rejunte com escovinha de dentes, limpar portas e dar polimento em pia de inox até virar espelho são atividades que têm múltipla função: combater o stress, esvaziar a mente de problemas para enchê-la de soluções, fortalecer a musculatura e, de quebra, fazer seu habitat não ficar com aquela aparência de chiqueiro.

Pois é. E nas minhas profundas reflexões fiz aquele famosa e batida retrospectiva do ano que está acabando. Lembrei de tudo o que aconteceu e fui separando os momentos merda dos momentos uhu. Um pensamento puxando o outro, fui colocando tudo em caixinhas etiquetadas, jogando fora o que só serve pra ocupar espaço no meu combalido HD. Coloquei tudo numa planilha excel e, quando finalizei o balanço, vi que o saldo foi positivo.

Longe de mim querer bancar a Pollyanna, livro que eu li quando era mocinha. Basicamente, pensar Pollyannamente significa ver o lado bom em tudo que é desgraceira que acontece. Ela chamava de “o jogo do contente”. Algo como receber um par de muletas de presente e ficar contente porque não precisa usá-las. Céus! Como posso lembrar de uma história lida no século passado e não ter a menor noção do que almocei ontem? Mesmo não sendo tão positiva quanto a heroína do livro, acredito que dá pra aproveitar muita coisa dos momentos merda, nem que seja pra falar que ainda bem que passaram.

Parte do que aprendi este ano foi acolher meus sentimentos negativos, minhas emoções confusas, meus sofrimentos e angústias sem ficar com raiva de mim por estar vivendo tudo isso. Aprendi a aceitar que “tudo bem não estar bem”. Sim, Broguinho, seu guru espiritual também tem momentos deprê. Desculpe aí, mas sou “humana, demasiadamente humana“, como disse Nietzsche. Chorei muito, fiquei dias sem comer, sem querer levantar da cama, sem me arrumar, achando que viver não fazia o menor sentido (bem… no mais das vezes não faz mesmo, mas e daí?).

Aí você coça o queixo e pensa: “tá. mas o que de bom há em ficar se sentindo um pano de chão rasgado e fedorento?”. E eu respondo que, a princípio, nada. Não é nada bom sentir dor. Não é nada bom olhar para a frente e ver um grande buraco negro prestes a lhe engolir. Não é bom querer que uma bala perdida encontre você ou que o mundo acabe em barranco pra você morrer encostado. Não é nada bom mesmo. No entanto, passada a crise, dá pra avaliar suas consequências e dizer que “ufa! que merda que eu estava e não estou mais.”

Me perdi, me encontrei, me perdi de novo e me encontrei de novo. Nesta busca, contei sempre com mãos a me guiar, orientar ou apenas apoiar (há vezes em que nada mais se pode fazer além de segurar pra não deixar cair de vez ou até mesmo cair junto para amortecer o impacto). Contei com amigos de sempre (aqueles que caminham comigo desde que o mundo é mundo) e amigos não tão antigos, mas não menos importantes. Conquistei amigos fresquinhos, que trouxeram novas perspectivas. Reencontrei amigos que (sei lá por que) haviam ficado em alguma curva da estrada. Por todos os lados, ao meu redor, num esforço conjunto, todos eles me ajudaram a sair da merda.

Este foi o lado bom da merda. Ter a certeza de que, por mais fudida que eu esteja, sempre haverá um amigo ali de prontidão. Sentir-me amada e protegida. Segura e cuidada. Sem julgamentos, sem cobranças, sem críticas. Saber da existência destas pessoas, meus anjos da guarda, me trazem uma felicidade indizível. Pode parecer frase feita (e de fato é), mas “amigo é pra estas coisas” é uma realidade. Ser “amigo” de farra, é mole. Quero ver ser amigo de fossa. Amar a pessoa pelo que ela é, é fácil. Quero ver amar a pessoa apesar de ela ser quem é.

No processo de “shoud I stay or shoud I go”, aos poucos fui colocando a roda da minha vida pra rodar de novo. Neste movimento, tudo vai acontecendo em sucessão. É complicado dar o primeiro impulso na roda. Difícil mesmo. Não há força, não há disposição, não há norte, não há nada. A inércia é total e parece lhe abraçar. Respeitei isso. Deixei acontecer (sem alimentar), sabendo que parte da cura é aceitar a doença. Um belo dia acordei e me senti bem. Aproveitei esta fagulha pra acender minha fogueirinha.

Não lembro exatamente da ordem cronológica dos acontecimentos, qual foi o primeiro impulso, mas ele aconteceu. Olhei no espelho e reconheci a pessoa que me olhava de volta. Cortei os cabelos, comecei a fazer atividade física, o apetite voltou, o sono de qualidade voltou, a ATM parou de me atormentar, arrumei, limpei, comprei coisinhas bonitas, úteis e inúteis. Comecei a ter mais foco, prestar mais atenção no que fazia, parei de sentir dores. Fui pra piscina, li dezenas de livros, ouvi música. Sorri. Aprendi a ligar o foda-se e rever minhas prioridades. Larguei de mão esta farsa de perfeição. Não sou perfeita. Você não é perfeito. O mundo não é perfeito. E daí?

Já posso até adivinhar sua próxima indagação. Você quer saber o segredo, a fórmula mágica, a receita do bolo pra sair da depressão. Desculpe aí mais uma vez. Lamento lhe informar que não tenho esta informação para dar. Posso lhe dizer que aceitei meu sofrimento, mas não me entreguei a ele. Também posso dizer que busquei ajuda. Dei tiro pra tudo que é lado e acertei a maioria deles. Contei com uma equipe multidisciplinar, atacando todas as frentes.

Próxima pergunta? Ah! Se eu resolvi meus problemas? A causa de tudo? A origem? Claro que não. Aprendi a lidar com eles, administrá-los, dar a eles a devida atenção (nem demais, nem de menos). Os problemas reais não têm solução. Os que tem solução, não são realmente problemas, são pedrinhas no sapato. Você tira o sapato, sacode e pronto. Os problemas reais são o próprio sapato e não adianta comprar um novo porque vai machucar também. Em outro lugar talvez, mas vai machucar. Rapidamente você retruca: então tira o sapato. Tá. Me aponte uma pessoa que vive bem sem sapatos. Não há. Os sapatos são necessários, ainda que machuquem.

Mais alguma dúvida? Deixe aqui seu comentário, que eu terei o maior prazer em responder. Se eu souber a resposta, claro, o que é pouco provável.

PS: já ia esquecendo: que 2022 seja menos merda que 2021.

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