Fatinha

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O despacho

In humor on 28/02/2013 at 7:16 PM

Querido Brógui,

Tudo o que eu faço no trabalho submeto à apreciação do meu Gerente. Tudinho mesmo. Pô! Mas você já está lá há quase um ano e ainda não aprendeu a fazer o seu serviço?  Tô aprendendo, tô melhorando, mas mesmo que já estivesse 100%, faria do mesmo jeito. É assim que aquela Gerência funciona – e muito bem, obrigada. Não existe trabalho solitário. De uma maneira ou de outra, todo mundo dá piruada no trabalho de todo mundo, trocando informações, reclamando das reclamações, rindo dos absurdos, ajudando ao outro sempre que possível. Se algum dia duvidei da existência e eficácia do trabalho em equipe, agora não mais. E o Gerente sabe tudo o que acontece, aconteceu e está para acontecer. E dá piruada em tudo.

Bem, então é assim: faço um ofício, vou mostrar. Faço uma planilha, vou mostrar. Faço um email sobre um assunto mais complexo, envio primeiro pra ele dar uma olhadinha. Invariavelmente ele rabisca tudo e manda fazer de novo. Coloca isso, tira isso, endireita a margem, muda as palavras, coloca em negrito, sublinha, puxa setinha pra lá e pra cá. Às vezes a parada fica tão rabiscada que nem ele entende. Daí ele vai e escreve tudo de novo.  Geralmente, depois da 15ª versão, ele se dá por satisfeito. Não fico aborrecida, nem acho chato porque sei muito bem o que é ser perfeccionista. É incontrolável. Os que sofrem desse mal fazem a mesma coisa centenas de vezes e sempre acham que não tá bom ainda.

Hoje, fiz um despacho. Não, não é de macumba. Embora, cá pra nós, todo dia surge um problema para cuja solução uma galinha preta bem gorda com farofa amarela e Velho Barreiro seriam bem úteis. É outro tipo de despacho. Daquelas coisas que funcionário público usa pra mandar o processo pra frente, digo, dar andamento. Escreve daqui, apaga dali, control C, control, V. O que foi mesmo que ele disse ontem? Eu devia ter anotado. Meu HD tá precisando de um upgrade. Pronto! Acho que ficou bom.

Já viu? Não. Vou ver. Leu, leu, leu. NÃO DEU NEM UMA RISQUINHO! NÃO MUDOU UMA VÍRGULA! Apenas assinou. É bem verdade que ele ficou todo empolado, morrendo de vontade de dar uma rabiscadinha, mas apenas fez uma breve recomendação, disse que estava excelente e pronto. Eu só não dei pulinhos porque além de eu estar de salto alto, ia ficar meio ridículo sair saltitando pela sala só por causa de um despacho bem feito. Ninguém ia entender, eu ia ter que explicar e ninguém ia entender do mesmo jeito. Ou melhor, uma pessoa entenderia. É. Ele mesmo, o Gerente, que conhece um pouco desse meu lado perfeccionista-neurótico. Ele entenderia, mas ficaria constrangido. Resolvi poupá-lo de minhas manifestações de entusiasmo. Então, soltei uns foguetes imaginários dentro da minha cabeça e me dei por satisfeita.

Acho que eu deveria ter tirado uma cópia do tal despacho pra mandar emoldurar. Seria um exagero?

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Rio 50°

In humor on 20/02/2013 at 11:35 AM

Querido Brógui,

O inferno é aqui.

Não, não estou em depressão, nem revoltada. Há semanas não leio jornal, nem vejo noticiários na televisão. Alienei total.

Não, não estou dizendo que todas as pessoas são ruins, que a humanidade está perdida. Conheço muita gente boa.

Estou sendo bem mais literal que isso. O que eu quero dizer é que aqui no Rio faz um calor insuportável, daquele do tipo que até o vento venta quente, parece o sopro do Capeta. Um calor que derrete a maquiagem, estraga a chapinha e faz o desodorante ficar vencido.

Para pessoas afortunadas, dentre as quais não me incluo,  que possuem um ar-condicionado em casa, a vida fica menos sofrida.  Salvo os milhões de reais gastos na conta de luz, ao menos podem sobreviver com uma certa dignidade, desde que não ponham os pés fora de casa.

Lá em casa não temos isso, então a sensação é a de viver dentro de um forno. Não há banho que dê conta. Não existe roupa fresquinha. Não há como ficar mais de um minuto no mesmo lugar ou na mesma posição. Com o ventilador ligado, o máximo que se pode fazer é ficar virando o corpo, refrescando um lado enquanto o outro sua. Por que não tem ar-condicionado na minha casa? Fácil responder, difícil de solucionar: porque a casa é antiga, a fiação do tempo do Império, do tempo em que se amarrava cachorro com linguiça, do tempo do guaraná de rolha, do tempo que dondon jogava no andaraí, do tempo em que os fios eram encapados com tecido. Tem noção? Periga dar um curto e a casa pegar fogo.

Para pessoas afortunadas, dentre as quais me incluo, que trabalham em local com ar-condicionado, a vida fica menos sofrida. Felicidade potencializada pelo fato de que não pago milhões de reais de conta de luz. Chegar aqui de manhã e saber que vou passar o dia inteiro no fresquinho é sair do inferno para o paraíso em frações de segundos. Mesmo assim, no paraíso, às vezes rolam umas discussões acaloradas (perdão pelo trocadilho horroroso): de um lado os que estão sempre com frio, do outro os que estão sempre com calor, na eterna briga pela temperatura ambiente. Eu nem me meto na encrenca. Ponho casaco, tiro o casaco. Meus paradigmas são outros. Pra quem trabalhou metade da vida com um ventiladorzinho muquirana espalhando o ar quente da sala de aula, qualquer temperatura menor que 40° tá no quilo.

Por falar nisso, na minha outra vida, no meu universo paralelo, no qual ainda sou professora, continuo  ganhando meu dinheirinho suado (perdão, de novo, pelo trocadilho infame). Chego lá toda linda, saio com cara de quem acabou de esfregar o chão da escola. Com a cara.

A previsão da meteorologia para essa semana é de mínima de 38° na sombra e máxima de 50° no sol. Bacana, não? Sem chuva, sem vento, sem trégua, sem fazer reféns.

Eu, Calvin e Haroldo

In humor on 13/02/2013 at 11:23 AM

Calvin na praia 2

Na praia

In humor on 11/02/2013 at 7:55 PM

Querido Brógui,

Acordei hoje cedinho morrendo de vontade de dar um pulinho na praia. Calibrar o bronzeado, sabe? Olhei pro céu, tava à meia-boca. Não valia o sacrifício de pegar o carro, caçar uma vaga, encarar o perrengue.

Fiz umas coisinhas no computador e olhei novamente pro céu. Tava abrindo o tempo, já era tarde, mas tomei coragem. Fui.

Depois de uma volta infrutífera pelas bandas de Ipanema, voltei pra Lagoa, deixei o carro por lá e fui andando, andando, andando… Léguas e léguas debaixo do sol, desviando de toneladas de lixo deixadas pelos foliões e com sede.

Vinícius de Moraes. Ok. Ficarei por aqui mesmo. Não. Ficaria por ali mesmo não fora o som de um funk estúpido vindo de um carro de som estúpido cercado por pessoas estúpidas.

Quebrei para a direita. Joana Angélica. Ficarei por aqui mesmo. Uma breve parada na padaria para comprar uma Coca e um saquinho de palitinhos de queijo a peso de ouro. Ok. Quem tá na chuva é pra se queimar. 

Praia lotada e eu já me perguntando que diabos eu estava fazendo ali, ao invés de estar dormindo. Posicionei-me num pedacinho micro de areia, o mais perto da água possível, peguei meu livro e, entre uma linha e outra, procurei abstrair o calor filhodaputa e a infestação de crianças mal educadas que insistiam em pisar no espaço delimitado pela minha canga. 

Lá pelas tantas, quando o milésimo monstrinho passou, sem cerimônia alguma, por cima da  canga, atropelando inclusive minha bolsa, resmunguei: “Adoro crianças… com batatas!”

O rapaz que estava perto de mim sorriu, os amigos dele sugeriram que eu reposicionasse minha canga pra não dar passagem e daí em diante o inferno ficou mais palatável. Começamos a conversar e a rir e o bate-papo rendeu. 

Lição número 1 do dia: no inferno tem gente legal.

Lição número 2: nada como um bom papo pra esquecer dos riscos do câncer de pele.

PS: Antes que você fique todo assanhadinho achando que arrumei paquera na praia, vou logo informando: o rapaz é casadíssimo e eu sou uma mulher de respeito, tá?

Lição número 3: os melhores assentos sempre estão ocupados.

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