Fatinha

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Metamorfose ambulante

In Sem categoria on 24/07/2008 at 10:51 AM

Querido Brógui

Estava eu, há poucos minutos, conversando com uma grande amiga, HL. Nessa conversa, externei um pensamento. Tenho uma teoria (aliás, sou cheia de teorias) de que meus meus pensamentos tornam-se mais palpáveis quando os divido com um ouvido de confiança.

Fico muito feliz com a capacidade que tenho de me reinventar de quando em quando. Como sabiamente disse Raul Seixas: "Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo.". Então, de quando em vez eu me pego a mudar e essas mudanças me fazem sentir cada vez mais viva, cada vez melhor, cada vez mais consciente de que sou senhora do meu destino. Meu caminho não está traçado, minha vida é uma estrada em construção, parte asfaltada, parte já cheia de buracos, parte sendo já recapeada, parte ainda mero esboço numa planta.

Qual foi a grande mudança? Tentar encontrar um certo equilíbrio, como meu amigo André me alertou há alguns meses e na época eu não fui capaz de compreender. Ele disse que se preocupava comigo por achar que eu estava colocando todos os ovos em uma só cesta. Certíssimo.

A palavra de ordem agora é "diversificar". Ou "ampliar". Ou "abrir". A vida pode ter mais cestas, mais ovos e ser mais legal.

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Eu não vou morrer nunca

In Sem categoria on 21/07/2008 at 9:35 PM

Querido Brógui

Hoje, dois anos após a morte do Tio Mário, comecei a desocupar de suas coisas o seu apartamento. Por que tanto tempo depois? Um misto de deixa-pra-depois com a sensação incômoda de estar mexendo naquilo que não me pertence. Decidi ir lá depois que sonhei com ele me dizendo que estava mesmo querendo falar comigo, que estava tudo bem e que ele já tinha falado com Deus.
Enquanto futucava seus objetos pessoais, fui conhecendo meu tio. É impressionante o quanto conseguimos saber acerca de uma pessoa por aquilo que esta reúne ao longo de sua existência terrena e, mais ainda, como os “aquilo” são organizados. Percebi que pouco sabia sobre ele e o quanto teria sido bom sabe-lo de outra forma que não essa. Temos tanto em comum como jamais imaginara.
Livros. Centenas de livros. Não sei se ele chegou a ler todos, acho que não, há algumas coleções de banca de jornal ainda dentro do plástico, mas ele os amava. Acho que comprava pelo prazer de tê-los, ainda que fossem repetidos, mesmo que não os lesse.
Há, no acervo, exemplares datados de antes do meu nascimento. Romances, livros de História, Filosofia, dezenas de dicionários, enciclopédias, livros sobre saúde, animais, Atlas, Direito (!). Foram dez caixas de livros. Duas de roupas. Dá o que pensar, não? Poucas roupas e muitos livros.
Descobri que meu tio aprendeu inglês com um dicionário e a coleção completa de Ágatha Christie nessa língua. Também descobri que ele aprendeu a mexer em um computador antes de ele virar um eletrodoméstico, encontrei uma apostila da linguagem Cobol! Descobri que ele adorava matemática, palavras cruzadas, charadas, testes de inteligência, jogar na loteria.
Gostava de viajar. Nas suas gavetas desorganizadas, há poucas fotos e muitos cartões postais. Tem um monte de cartões postais do Vesúvio. Acho que ele se encantou com o vulcão. Tem roteiros de viagens, um monte folders de hotéis, até nota fiscal de um almoço em Foz do Iguaçu.
Li uma carta do Vovô Ricardo, datada de maio de 1945, enviada para a Itália em plena 2º Guerra. É, Tio Mário foi pracinha da FEB.
Achei um exemplar do livro que publiquei, cartões de inscrição de concursos públicos que ele fez (acabou passando), um Diário Oficial agradecendo pelos serviços prestados com eficiência ao Estado do Rio de Janeiro, um documento de nomeação para um cargo de chefia assinado por Carlos Lacerda (!), um diploma de honra ao mérito assinado por Chagas Freitas, meus convites de primeira comunhão, de quinze anos e de formatura. Todos (!) os contracheques dele estavam lá, naquela miscelânea de meias, revistas antigas, recortes de jornal, extratos de banco, cadeados sem chave e chaves sem porta …
O duro foi jogar coisas fora. Até que não foi muita coisa pro lixo não, apenas pilhas de revistas e jornais velhos, uns cacarecos tipo caneta que não escrevia, antena de televisão quebrada, mas mesmo assim me senti invadindo a privacidade dele, selecionando o que era ou não “viável”. Foi como se eu estivesse decidindo o que era ou não importante na sua vida. Em determinado momento pensei: daqui a quarenta anos meu sobrinho estará fazendo a mesma coisa, com a diferença de que achará tanto livros quanto roupas e sapatos. Vai dar mais trabalho.
Então é isso? É isso o que resta de uma vida? É assim que contamos nossa história? Coisinhas que guardamos nas gavetas e nas estantes? Acho que sim. Acho que não. Ainda restam as memórias que deixamos na cabeça dos outros, lembranças que não nos pertencem e por isso delas não dispomos (nem nossos herdeiros), registros que enfim também se apagarão quando os seus receptáculos se forem. Ou não. Eu tenho o Querido Brógui. Não vou morrer nunca.

O cavalo branco de Napoleão

In Sem categoria on 12/07/2008 at 11:58 AM

Querido Brógui

Sou pretensiosa. Muito. Um poço de pretensão. Trabalho na rede pública de ensino e ainda tenho a pretensão de querer que os alunos libertem-se de parte sua ignorância.
Pois bem, vamos então aprender umas coisinhas acerca da Crise de 1929. É, “acerca” junto, não é “a cerca”, não estou cercando nada. É, crack da Bolsa de Valores, quebra. Não, não é aquela droga que se fuma por aí. Posso começar? Vou explicar o básico do básico. Nada muito profundo, que demande o uso de mais de um neurônio. Demandar? Demandar é exigir. Quer dizer que seu cérebro não vai ficar muito cansado. Deixa o Tico dormir e acorda só o Teco. Posso continuar? Então, presta atenção.
Blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá Alguma dúvida? É facinho, não é?
Agora, vamos fazer um exercício para fixar o conteúdo. Tudo bem? Primeira pergunta: quando aconteceu a Crise de 1929?
Professora, isso tá no caderno?
Se o Querido Brógui fosse audiovisual, eu dramatizaria, mas como vocês me conhecem, então podem imaginar as caretas.
Iniciei os procedimentos de ressuscitação daquela alma.
Coloquei as mãos no peito simulando um enfarte e gritei, em voz dramática: “PÁRA TUDO!!!!”
A turma inteira deu um pulo da cadeira.
Baixei o tom de voz e disse, meigamente, para a criatura: “Meu amor, acho que você não leu a pergunta direito. Em que ano aconteceu a Crise de 1929?”
A turma, tão incrédula quanto eu, olhou para a menina. Alguns também colocaram as mãos no peito, outros na cabeça, um deles teve uma crise de apnéia, outra escorregou da cadeira. Isso eles aprenderam direitinho comigo: como fazer palhaçada.
A menina olhou pra mim, com cara de ponto de interrogação.
1910?
Dei outro grito, me contorci como se tivesse tendo uma convulsão.
Repeti num tom de voz choroso: “Minha flor de formosura, vou perguntar de novo, bem devagar: em que ano aconteceu a Crise de 1929?”
1930?
A comoção foi geral. Parecia final de campeonato, quando todo mundo fica estressado querendo entrar em campo para fazer o gol da vitória.
Perdi a linha, peguei o meu chaveiro de cachorrinho, parti pra ignorância e o arremessei na menina. Errei. A aluna que estava sentada ao seu lado começou a socar a mesa enquanto os outros urravam desesperados: “CRISE DE 1929! 1929! 1929!”
Num último sopro de resistência, perguntei, desesperada: “EM QUE ANO ACONTECEU A CRISE DE 1929?”
1929?
A turma explodiu em aplausos (tá pensando que só eu sou debochada?). Abracei e beijei a menina, comovida. Puxei até um corinho com o nome dela.
E neguinho ainda acha que a piada do cavalo branco de Napoleão é apenas uma piada…

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