Fatinha

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A porquinha

In humor on 14/01/2021 at 10:16 AM

Querido Brógui,

Achei uma porquinha na minha sala. No chão da sala do Micro, que é meu pedaço do Paraíso aqui na Terra. Ele é a coisinha mais fofa do mundo, meio fashion, meu casinha de boneca, meio baguncinha de um lar. Meu Microcosmos. Do meu jeitinho, como sempre sonhei. Bem… estou divagando. Começarei de novo.

Achei uma porquinha na minha sala. Já era noitinha, tinha acabado de encerrar meu expediente. O tal do home office que todo mundo pensava antes que era a maior molezinha. Trabalhar em casa, não ter que enfrentar trânsito, não ter que acordar mais cedo para se arrumar. Ficar em casa com roupinha de ficar em casa, sem maquiagem, sem se preocupar se o cabelo está no bad day. Fomos enganados. Tem esta parte legal, mas tem aquela parte que ninguém nos contou que é fazer o trabalho para o qual somos pagos e ao mesmo tempo lavar, passar, cozinhar, fazer faxina, ver o que está faltando em casa, fazer as compras pela internet, etc, etc, etc. Temos hora pra entrar, mas não temos hora pra sair. Se houver uma demanda aos 45 do segundo tempo, temos que atender. De todo modo, no frigir dos ovos, eu estou gostando muito. É. Todas as coisas acabam se organizando, os horários e tudo o mais. A única coisa que não gosto é que perdi o ar-condicionado. No verão do Rio de Janeiro, chegar ao trabalho e vestir um casaco era tudibom. Enfim… estou divagando de novo. Começarei de novo.

Achei uma porquinha na minha sala. Tive que montar uma estação de trabalho, comprei uma mesinha, poltrona espadar alto, desktop, coloquei meus lápis numa latinha de Coca-Cola antiga, daquelas que ainda eram de lata mesmo. Ficou uma graça ainda que o espaço seja pequeno – não estava planejado montar um escritório no meio da sala – e consegui acomodar tudo em 90 cm. Nada como pouco espaço para otimizarmos a ocupação. Nenhum centímetro é desperdiçado. Tudo é milimétricamente arrumado. Eu, acostumada com casa grande, nunca dei importância a estes detalhes. Agora, sou a mulher da trena, não tenho lugar pra entulhar nada (a propósito, tenho que desocupar o box do banheiro social, que está servindo de armário para umas coisinhas). Lá em casa, temos um brechó. É de dar medo. Só em pensar em selecionar e arrumar e se desfazer de tanto troço, fico toda arrepiada. Putz… Divaguei de novo. Começarei mais uma vez. Agora vai.

Achei uma porquinha na minha sala. Não uma porquinha de verdade. Quero dizer, não uma porquinha viva. É uma porquinha daquelas que servem para enroscar um parafuso. Uma porquinha até bonitinha, pequena, sextavada, cutcut mesmo. Como ela veio parar no meio da sala? Caiu de algum lugar e neste lugar há um parafusinho solitário, desprotegido, solto ao léu, chorando pela sua porquinha perdida. Me corta o coração pensar no pobre parafusinho pensando no porquê de ter sido abandonado pela sua amada porquinha. O que ele fez de errado? Por que ela foi embora? Nós éramos tão perfeitos juntos, nos completávamos, nos ajustávamos, éramos tão próximos um do outro e de repente ela foi embora.

Parafusinho querido. Não fique triste assim. Você não fez nada de errado, não entre nessa onda de culpa e remorso, tá? Estou ajudando a sua porquinha a voltar pra você. Ela não o abandonou, caiu no chão sem querer. Pode ter sido um movimento brusco, uma folga no aperto, mas foi um acidente. Ela sente saudades também e está doida para vê-lo de novo. Desde ontem estou procurando por você para juntá-los novamente e tenho certeza de que vou encontrá-lo. Você não pode estar muito longe. Ela está bem, guardadinha aqui em cima da mesa. Um pouco nervosa, preocupada com você, mas já falei pra ela que tudo vai dar certo. O amor de vocês é lindo, a maneira como convivem harmonicamente, cada um fazendo seu papel, sem nunca terem entrado em conflito. Ajustados num abraço bem apertadinho. É a perfeição que todos os amantes procuram e poucos encontram. Vocês encontraram. Foram feitos um para o outro e nada vai mantê-los afastados por muito tempo. Prometo que vou encaixá-lo na sua amada porquinha em breve.

Confie. Tenha fé. Não perca a esperança.

E tem que regar todo dia

In humor on 13/01/2021 at 11:27 AM
Broguinhos! Bora cantar, dançar e sorrir!

Querido Brógui,

Alguns vão lembrar desta música. Quem nunca ouviu, nunca é tarde para conhecer A Cor do Som. Banda criada em 1977, por músicos que acompanhavam Moraes Moreira quando ele saiu dos Novos Baianos. Mú, Dadi, Armandinho, Ary Dias, Gustavo Schroeter. Galera abençoada, que trouxe – e ainda traz – alegria.

Em tempos de tomatomatomatoma sentasentasentasenta, é uma bênção escutar algo que realmente vale à pena. O amor precisa para viver de emoção e de alegria e ter que regar todo dia. A rotina é a grande vilã, assim como a distância, o excesso de ocupações, a preguiça, o cansaço. Mas o amor Sim, é como a flor. Uma semente que tem que ser cuidada, paparicada, olhada. Não basta plantar e largar pra lá. Até um cacto tem que ser regado vez por outra.

Plantar amor é até fácil. Difícil é conservar e não deixá-lo morrer. Dá um trabalhão, mas trabalhão que dá prazer e muita muita alegria. Quantos têm o privilégio, como temos, de ter amores de anos, décadas? Amores que criam laços que, como disse Mário Quintana, não prendem, não escravizam, não apertam, não sufocam. Amores regados de amor. E fé. E esperança.

Fé e esperança – Mamãe sempre falava isso. Ter fé e esperança. Fé é uma convicção. É acreditar, mesmo sem provas, mesmo que todas as evidências apontem em outra direção. Ter fé é esperar que o que queremos que aconteça, vai acontecer. Esperar com fé é ter esperança. Confiança na possibilidade. Fé e esperança andam de mãos dadas. Não consigo ver uma sem a outra. No jardim da fé eu já plantei um pé de esperança.

À fé e à esperança acrescento o amor. Fé e esperança plantados no amor. Aquele amor que vem em várias formas. Amor de amigo. Amor dado e recebido de pessoas que nem conhecemos direito. Amor de casal. Amor de familiares. Amor via internet. De máscara. No olhar, na voz. Qualquer maneira de amor vale à pena. Qualquer maneira de amor valerá.

Na linha guru espiritual, a ordem de hoje é escutar A Cor do Som, cantar junto, levantar da frente do computador e dançar. Larga tudo. Para tudo. Solte a franga. Quando acabar a música põe pra tocar de novo, de novo, de novo, aumenta o volume, cante mais alto, pule, pule, pule – até o vizinho estressado ameaçar chamar a polícia porque você endoidou de vez. Aí você bota a cara fora da janela e canta pro vizinho.

Um abraço de laço, Broguinho.

PS: De brinde, segue Mário Quintana

O Laço e o Abraço (Mário Quintana)

Eu nunca tinha reparado como é curioso um laço…
Uma fita dando voltas.
Enrosca-se, mas não se embola, vira, revira, circula e
pronto: está dado o laço.
É assim que é o abraço: coração com coração, tudo
cercado de braço.
E quando puxo uma ponta, o que é que acontece?
Vai escorregando…
Devagarzinho, desmancha, desfaz o abraço.
E saem as duas partes, iguais meus pedaços de fita, sem
perder nenhum pedaço.
Então o amor e a amizade são isso…
Não prendem, não escravizam, não apertam, não sufocam.
Porque quando vira nó, já deixou de ser um laço!

Longe, sim. Separados, nunca.

In humor on 06/01/2021 at 10:06 PM

Querido Brógui,

A maldita pandemia impôs (pelo menos para as pessoas sensatas) o tal do isolamento social, que, para mim significa não poder estar com as pessoas que amo. Não poder estar junto pra rir, falar bobagem, fazer visitas, sair pra passear, ir para feirinha, pegar uma praia ou sentar num banquinho de praça pra ver o tempo passar.

Não poder estar junto implica em também não poder abraçar. Não poder abraçar é um comportamento antinatural para mim. Sempre fui abraçadora. Sempre gostei de agarrar bem apertado, quebrando as costelas, sentindo aquela energia boa passar de um corpo para o outro. Não é aquele abracinho nojinho, é abração mesmo, é se pendurar no pescoço do outro e sentir acolhimento, carinho, afago, segurança.

Todo mundo que conheço vez por outra se queixa da solidão, de saudades. Um suspiro melancólico escapa sempre. Mesmo quem não mora sozinho, sente a solidão. Sente falta de outros além daqueles com quem divide o teto. Sente falta de renovação, reclama que o assunto acaba e o silêncio vem. Normal. Difícil encontrar assunto novo pra conversar com alguém que está confinado no mesmo espaço 24 horas por dia por longos e longos meses. Haja criatividade! E mais difícil ainda é inventar assunto que não seja morte, doença, vacina, 2ª onda, tô de saco cheio, tô estressado, tô cansado e por aí vai. A conversa roda, roda e acaba no mesmo assunto. Deprê total.

Mas, Querido Brógui, como assumi a missão de ser seu guia espiritual mesmo estando tão na merda como você, o assunto de hoje é a existência do abraço de longe. O abraço que vem pelo telefone em ondas de empatia. O colo que vem por escrito. O amor que vem só na voz. Aquela abençoada chamada de vídeo na qual você chora e o outro puxa o lencinho. O abraço que vem dos anjos personificados nos amigos.

Hoje tive um dia péssimo. Gastei dois rolos de papel higiênico secando lágrimas e assoando o nariz. Tive falta de ar, dor de cabeça, tremedeira. Um horror. Por outro lado, tive um dia ótimo.

Tá doida, Brógui?

Tô não, Brógui.

Tô na merda, mas tô legal. Tô na merda porque estou sofrendo. Tô legal porque o sofrimento foi apaziguado pelos meus anjos. Sim, acredito em anjos. Não aqueles gorduchinhos com asinhas, mas aqueles que Deus coloca no meu caminho nos momentos de desespero. Incontáveis vezes os anjos me acolheram. Muitos de vocês provavelmente já foram anjos na minha vida e nem sabem disso, mas eu sei.

Então… Hoje, meus anjos vieram me acudir, me consolar, me guiar, passar a mão na minha cabeça e aliviar minha dor. São aqueles amigos que estão longe, sim. Separados, nunca. Aqueles que nem entendem bem o que você está dizendo ou do que você está falando, mas vão pegando uma ideia aqui, outra ali, concluem que tá feia a coisa pro seu lado e tomam para si a difícil e árdua tarefa de segurar sua mão a quilômetros de distância e puxar você pra fora da piscina de lágrimas antes que se afogue.

Aqueles serem humanos metamorfoseados momentaneamente em anjos ouvem, falam, não ouvem direito, mas falam assim mesmo, mandam inspirar, expirar e não pirar. Mandam assoar o nariz abrindo a boca pra não estourar os tímpanos. Mandam comer porque você precisa se alimentar e ficam esperando pra ver se comeu mesmo. Mandam dormir, ver um filme besta pra distrair, tomar chá de camomila. Ficam ouvindo você chorar, soluçar e só desligam o telefone quando a situação parece mais ou menos sob controle. Enviam mensagens pra checar se conseguiu descansar um pouquinho, se tomou o remedinho para dor de cabeça ou se tá precisando de mais papel higiênico. Depois ligam mais uma vez, mandam mais mensagens só pra saber se tá tudo bem ou se o drama começou de novo.

E, depois da tempestade, vem a bonança (que significa tranquilidade, acabei de olhar no dicionário). Vem aquela certeza de que tudo vai dar certo. Aquela sensação de que o pior já passou, não houve naufrágio, o barquinho continua seu rumo em direção ao lindo por de sol. Nos remos, meus anjos. No leme, este Brógui que aqui escreve sem deixar uma lagriminha cair.

Assim somos nós, Broguinho: longe sim, separados, nunca.

PS: Deixem comentários, coloquem estrelinhas, encaminhem o post pra seus contatos. As ferramentas estão logo abaixo do texto. O Brógui tá carente, precisando de abraços dos seus anjos.

Autoajuda

In humor on 05/01/2021 at 7:35 PM

Querido Brógui,

Acordei hoje com esta música. Não fui acordada por esta música. Por incrível que pareça, hoje o vizinho taxista que trabalha na madrugada desligou o rádio antes de estacionar embaixo da minha janela. Acordei com esta música porque ela estava no meu sonho.

Havia muitas pessoas, todas sentadas no chão, em silêncio, usando máscaras. De repente, assim de repente – como em todos os sonhos – começou a tocar esta música – acho que apareceu um DJ (!) – e eu me levantei de um pulo – coisa que só mesmo em sonho eu conseguiria fazer – e comecei a dançar. Acordei.

A primeira coisa que me veio à cabeça foi que eu precisava escrever pra você. Precisava contar o meu sonho.

“É a vida, é bonita e é bonita.” Gonzaguinha escreveu isso em 1982. Há 39 anos, o que estamos vivendo não passaria de um roteiro batido de filme catástrofe, daqueles bem desgracentos, cheio de lágrimas, gritos e um final geralmente feliz. Jamais pensaríamos que respirar se tornaria algo tão perigoso, que viver se tornaria algo tão perigoso, que uma normal ida ao mercado se tornaria uma aventura.

O ano de 2020 foi phodda pra todo mundo, para uns até mais do que para outros (?). Sofrimento se mensura (?). O meu parece maior do que o de todo mundo porque é meu. Simples assim. Só eu sinto e dizer que consigo imaginar o do outro é balela. Posso ser solidária, companheira, amiga, ouvir, dar palpite, consolar, segurar a mão (não, segurar a mão é coisa do passado, a menos que esteja usando luvas), mas só quem sente sabe o que sente.

Perdemos pessoas próximas ou mais ou menos próximas ou distantes mas que são próximas de alguém que é próximo de alguém próximo. Os consultórios estão lotados de gente que está somatizando e adoecendo. É. Não podemos esquecer que as demais mazelas continuam aí. Não tem doença esperando a pandemia acabar para dar as caras. Desemprego, miséria, desigualdade sempre existiram (e tá pior). Preços subindo, coisas faltando, gente se aproveitando da desgraça para enricar mais ainda e se esconder dentro de uma bolha hiperbárica, estéril e confortável. Um bunker maravilhoso e virus free. Por outro lado, outros indo pra gandaia mesmo, sem máscara, sem cuidado algum porque encheu o saco de ficar trancado em casa e com a certeza de que o vírus só pega no vizinho e não dando a mínima se vai contaminar alguém.

Os psicólogos e psiquiatras estão fazendo hora extra pra dar conta da renca de gente deprimida, ansiosa, com todas as síndromes de que já ouvimos falar e mais algumas que estamos conhecendo agora. Aumentou ou número de drogados, sejam as drogas lícitas ou ilícitas. Gente buscando a fuga ou o consolo ou um fugaz esquecimento, ou alívio. Tanto faz. É gente em sofrimento.

Ok, tá difícil de ver a boniteza da vida, mas bora procurar a beleza no fato de estar vivo? Bora lembrar que somos sobreviventes de uma pandemia (sequelados, mas sobreviventes)? Bora celebrar? Não é possível que você não tenha vivido um minutinho sequer de alegria durante o ano todo. Viveu? Lembrou? Então seja grato pela vida, que é bonita pelo simples fato de ser vida.

E Gonzaguinha canta que a vida devia ser bem melhor e será. É isso que precisamos repetir como um mantra. Talvez, pela repetição, consigamos nos convencer de que há esperança de um dia nos abraçar de novo e nas conversas mencionar algo como “nos tempos da pandemia…”. A vida será melhor. Veremos/teremos uma vida melhor porque estamos aprendendo a olhar para ela com outros olhos. Temos agora a oportunidade de uma mudança radical de paradigmas e reavaliar o que é realmente bom, necessário, legal e o que não é. Podemos mudar nossos valores e quem sabe agora consigamos perceber o que realmente importa. Bem… ao menos espero que você, Querido Brógui, consiga, como eu sei que vou conseguir. Vou me convencer disso e isso vai se tornar real.

E, falando em convencimento, comecei a ler um livro ontem. Um livro de autoajuda. É, Broguinho, cheguei ao fundo do poço, lendo livro de autoajuda, o que sempre reputei como uma sequência de baboseiras que alguém escreve para ganhar dinheiro e nos dizer que tudo o que fazemos está errado e dando soluções milagrosas para nossa vida porque somos estúpidos demais para perceber o óbvio.

De todo modo, uma das coisas que li ontem foi que a única vantagem de se estar no fundo do poço é que só tem uma direção possível: para cima. Bacana. Inspirador. Dá um gás, mas ouso discordar. Não há apenas uma direção possível. Ainda há outra opção: cavar mais e tornar o buraco cada vez mais fundo. A vida é assim, é feita de escolhas, não dá pra escapar disso. Pequenas ou grandes, é o que passamos a maior parte do nosso tempo fazendo. E, uma vez a escolha feita, já era. Não dá pra apertar o ctrl x e deletar e querer reescrever a história da sua vida. É aceitar que o efeito borboleta já está acontecendo.

Como seria a minha vida se tivesse feito outras escolhas? | O arrumadinho

Não sei quem criou este quadrinho, mas é genial. Como seria se eu tivesse entrado à direita ao invés de entrar à esquerda? Onde eu estaria? E se eu tivesse casado ao invés de comprar uma bicicleta? Este é o típico pensamento inútil, que apenas consome energia, oxida nossos neurônios e faz com que entremos num loop infinito sem concluir absolutamente nada. Conheço você, Querido Brógui, e tenho certeza de que já fez isso alguma vez e ficou se consumindo na lava do arrependimento, da culpa, do coitadismo.

E aí vem Gonzaguinha me visitar no meu sonho e me lembrar que “é a vida, é bonita e é bonita.” Aquele livro que estou lendo diz da importância do otimismo. Pensar positivo, pra cima. Ser pessimista é fácil. Não nos faltam motivos. Quero ver é ser otimista em meio ao caos. Este é o desafio que faço a você, Querido. Alimentando o pessimismo, se ainda não está no fundo do poço, está prestes a cair nele. Aliás, se está lendo atentamente esta edição autoajuda, refletiu acerca de minhas sábias palavras e chegou sua leitura até este ponto, lamento informar: você já está no fundo do poço, aceitando conselhos de qualquer um, até os meus.

Fique bem, se cuide.

AGLOMERAÇÃO

In humor on 19/08/2020 at 4:30 PM

Querido Brógui,

Quero aglomeração.

Vou repetir.

Quero aglomeração.

Quero ficar na fila do banheiro e quando entrar no reservado, quero gente batendo na porta. Quero ficar esperando para lavar as mãos e depois ver que não tem toalha de papel. Quero secar a mão na calça.

Fila… ai, que saudades! Fila pra entrar no restaurante, fila pra pesar o prato, fila pra pagar… Quero muitas filas. Para ir ao cinema, ir ver uma exposição. Quero entrar na fila para um evento gratuito. Estas são as melhores: gente furando fila, aquela minhoca que a gente não sabe onde começa e onde acaba, aquela gente impaciente que fica colada na sua bunda mesmo que você tente manter uma distância higiênica. Não quero mais distância higiênica. Chega de andar com uma trena para saber se a criatura está guardando um metro e meio de distância.

Sonho em ir a um show e aquela fulana suada passar por mim me empurrando sem pedir licença e muito menos desculpas. Ou então aquele cara com bafo de cerveja derrubar metade do copo na minha cabeça e seguir em frente depois de reclamar que eu é quem estava no caminho dele. Quero gente pisando no meu pé e sujando meu sapato. Quero ficar na cuspideira, onde é mais apertado ainda, onde você pula se todo mundo pula e tenta respirar com um escafandro.

Sabe o que mais? Quero SAARA de manhã e calçadão de Madureira à tarde. No mesmo dia. Ouvir gritaria, confusão, empurra-empurra, levar sacolada nas canelas e bolsada nas costelas. Andar pela rua porque não tem espaço nas calçadas. Comer podrão em pé no meio-fio.

Não ando de coletivo, mas quero andar. Metrô da Carioca à 17:30 com aquela parada na Central me agarrando no poste para não ser ejetada. Ônibus sem ar-condicionado. Em pé. Sendo jogada pra lá e pra cá pelo mau-humor do motorista. Descer no ponto errado porque não deu tempo de chegar na porta.

Preciso ir para a academia. Ouvir aquela música ensurdecedora e ficar esperando para sentar naqueles aparelhos imundos e, quando sentar, ouvir a perua perguntar se já estou acabando, se dá pra revezar.

Quero praia lotada, criança correndo por cima da minha canga, olha o mate, biscoito grobo. Cachorro sacudindo o pelo na minha cara, levar bolada de altinho tentando chegar na água. Procurar vaga pra estacionar e ser obrigada a pagar uma fortuna ao flanelinha pra depois ver que ele meteu o pé assim que tomou o meu dinheiro.

É isso. Confessei. Agora, não me venha jogar este post na minha cara depois. Quando inventarem a vacina, quando todos estivermos imunizados contra este maldito vírus, quando o mundo parecer menos esquisito, voltarei a ser nojinho, reclamar de tudo, ficar de cara amarrada quando alguém encostar em mim. Combinado?

Minha vida tá tão boa

In humor on 11/12/2017 at 4:49 PM

Querido Brógui,

Este post fica mais legal ouvindo este fundo musical. Pode dançar também. E cantar. A letra é facinha. Se conseguir ler, ouvir, cantar e dançar ao mesmo tempo, ganha o prêmio Brógui do Ano.

Este ano foi corrido, como todos. Acho até que correu mais rápido. Eu corri rápido, corri muito, acabo o ano exausta. Mas sabe de uma coisa? Foi um ano muito legal pra mim.

Estou de bem comigo, acho que estou uma pessoa melhor, acho que estou menos chata, um pouquinho mais tolerante (um pouquinho já é alguma coisa). Bem, a impaciência continua. Não aprendi ainda a esperar e aceitar que o tempo do mundo não tem que ser o meu tempo. Continuo exigindo muito de mim, mas estou conseguindo me perdoar e (finalmente) sacar que sou humana (demasiadamente humana, como disse Nietzche).

Estou de bem com meu corpo. Depois de muito brigar contra a natureza, decidi me juntar a ela. Calma. Não vou me largar. Continuo vaidosa. Só que (finalmente) aceitei que o tempo passa. E com a passagem do tempo, as coisas mudam mesmo. Não dá pra querer ser como há vinte ou trinta anos atrás. Vou ser bonita e gostosa agora, com a idade que eu tenho (aliás, cá pra nós, sabe que me olho no espelho e acho que estou cada dia melhor?). Algumas batalhas já foram perdidas mesmo. E daí? Os hormônios descacetaram, as celulites tão alí e não vão embora, a pele vai perdendo um pouco da firmeza (tento compensar com meu caráter), meus cabelos brancos são bonitos, brilhosos, cor de prata (tô no projeto “xô tinta”, vamos ver que bicho que dá). Vou pra academia pra não entrevar, pra injetar serotonina nas veias, mas não pra ser madrinha de bateria.

Estou de bem com meus amigos. Os melhores, mais legais, mais divertidos, mais inteligentes, mais crocantes do mundo. Amigos de todas as idades, orientações, credos. Todos lindos, especiais, únicos. Todos escolhidos e colhidos ao longo do tempo. Não nos vemos sempre? Ou quase nunca? É chato, mas eles estão ali. E eu estou aqui. E vez por outra a gente se fala como se tivesse se falado ontem. Em meia hora faz-se o resumo de tudo, rimos até ficar com dor no maxilar, nos abraçamos, trocamos energia positiva. Prometemos não nos perder e não nos cobramos um suposto abandono.

Consegui realizar um sonho. Comprei meu Microcosmos. Agora o próximo sonho é deixá-lo bem bem bonitinho, bem aconchegante. Pra quê? Ter o meu canto ora, do meu jeito. Aí todo mundo faz a mesma pergunta: “E os seus pais? Como vai ser?”. Vai ser como é possível ser. O Microcosmos é pertinho, vai ser um pé lá outro cá. Chato? Não. É ótimo. Tenho meus pais vivos e este ano (finalmente) aceitei que isso não é apenas um fardo (sem hipocrisia, quem cuida de velho ou de criança sabe que a tarefa é pesada). Ter meus velhinhos comigo é uma bênção. Claro que reclamo (e muito), claro que toda a minha vida é em função deles, mas estou de bem com isso também. O Microcosmos será meu refúgio, meu retiro, minha casinha de boneca pra eu brincar com meus amigos.

Por fim, mas não menos importante, estou de bem com o amor. Fiz as pazes com Eros e Afrodite. Depois de ter oficialmente pendurado as chuteiras, batido no tatame, pedido pra sair, encontrei meu Namoradinho das Galáxias (por que este codinome? porque ele mora a 40 km de distância de mim, praticamente em outra galáxia e também porque ele é o melhor namoradinho de todas as galáxias conhecidas e desconhecidas). Ele é perfeito? Não. Nem eu sou. Mas somos perfeitos juntos. Vivo este amor um dia de cada vez. Não faço planos para um futuro muito futuro (ele faz e eu acho isso fofo demais). Difícil foi aprender a falar no plural depois de tanto tempo single. Mas acho que aprendi.

Conseguiu ler, ouvir, cantar e dançar? Posso colocar seu nome na premiação do Brógui do Ano?

Rotina

In humor on 28/11/2017 at 6:53 PM

Querido Brógui,

Segue a rotina. Ok, todo mundo a tem. Uns tem rotinas mais animadas, menos… digamos… fora do rotina. Outros tem a rotina rotineira mesmo. Tipo eu.

Basicamente, não há na minha rotina um dia em que eu não tenha um sem-número de coisinhas pra fazer. Coisinhas miúdas, coisinhas não tão miúdas assim.

Sete horas da manhã. Toca uma rumba no meu celular. É o toque do despertador. Acordo. Digo, levanto. Acordar já é um processo mais lento. Só depois da canequinha de café e do banho canja (sabe? com a água bem quente, quase arrancando o couro, que deixa a pele formigando?).

Sigo pra cozinha. Fervo água. Coloco na canequinha. Um minuto para a canequinha esquentar, devolvo a água pra chaleira, coloco a água no filtro, passo o café (ops! esqueci de botar o pó). Sigo para o banheiro (com a canequinha, óbvio). Saio do banho, sento em atitude contemplativa em frente ao armário. Com que roupa eu vou? Escolho uma peça pra montar o restante. Geralmente começo pelo sapato, mas às vezes dou uma variada. Separo o look do dia enquanto penso a que horas vou conseguir voltar para a cama. Passo o hidratante, o perfume, o desodorante.

Volto para a cozinha. Pozinho para o joelho (remédio que provavelmente custa mais caro do que eu apuraria vendendo meu joelho no mercado negro) no copo com água. Pego as vitaminas que minha médica prometeu que iriam me dar mais disposição, mais energia e aumentar a minha libido (ela disse, quase chorando de rir, que com a vida que eu levo é querer muito ainda ter libido). Volto pro quarto enquanto o pozinho dissolve. Visto a roupitcha (não ficou boa. troco a roupitcha. melhorou, mas não tá legal. troco de novo. pronto. agora fiquei lindona).

Volto para a cozinha. Pozinho do joelho pra dentro, outro pozinho no copo. Este é o que chamo de pozinho da fé. Colágeno. Promete manter as pelancas sob controle, fortalecer unhas e cabelos. Tenho fé. Tomo todos os dias enquanto acompanho as rugas se formarem ao redor dos olhos, a bunda desmoronar e o músculo do tchau cada vez mais me forçar a apenas sacudir os dedinhos quando me despeço de alguém. Meu raciocínio é: “se com colágeno despenca tudo, imagine sem ele?”.

Hora do reboco. Vou para o banheiro. Momento argamassa no qual tento (nem sempre com sucesso) disfarçar as imperfeições sob camadas e camadas de maquiagem. Começando pelas olheiras, que, dependendo do dia, ou melhor, da noite que passei pode estar escura, muito escura ou profundamente escura. Um tanto de corretivo, um tanto de base, pó, sombra, lápis, máscara para os cílios, batom e pronto. Agora posso me apresentar a outro ser humano sem causar traumas irreversíveis.

Volto para a cozinha. Pozinho da fé pra dentro. Mais uma canequinha de café. Volto para o quarto, arrumo a bolsa (cadê aquele batom? sim. a pessoa tem pra lá de trinta batons, variando do nude ao vermelho-capeta, mas quer exatamente o que não sabe onde está. provavelmente perdido no fundo de alguma outra bolsa. que também não sabe onde está). Enquanto arrumo a bolsa, dou uma olhadinha no WhatsApp pra ver quem foi o filhodaputa que mandou mensagem pra mim às três horas da madruga. Aproveito pra checar  o e-mail, a conta bancária, separar algum documento que tenho que levar, responder a um ou outro bom dia, ver a fatura do cartão de crédito (corto os pulsos ou tomo cicuta?). Repasso mentalmente todos os telefonemas que eu tenho que dar, todas as picas que tenho que encarar, todos os abacaxis que tenho que descascar. Coloco a roupinha da academia na mochila (como disse, sou uma mulher de fé. quem sabe hoje consigo dar um pulinho lá?).

Pego a chave do carro e aí surgem as variações na rotina: posso ir direto para o trabalho ou ir levar Mamãe à fisioterapia ou ir ao médico ou pegar o resultado de um exame no laboratório ou ir ao banco ou passar no posto pra abastecer e calibrar os pneus ou qualquer outra faina glamourosa nesta mesma diapasão.

Cansou não é, meu Broguinho querido? E ainda nem saí de casa…

Programa cachorro é legal

In humor on 01/08/2017 at 3:54 PM

Querido Brógui,

Programa cachorro pode ser um programa legal. Ou um programa legal pode se tornar um programa cachorro. Depende da sua disponibilidade, depende de com quem anda.

Sabe quando um programa todo planejado não sai como todo planejado? Você pode escolher entre cortar os pulsos ou se divertir. Simples assim. Imagine: você colocou aquela sandália ma-ra-vi-lho-sa, mas que morde seu pé. Pensou, bobinha, que ia ficar tranquilamente sentada a noite toda, fazendo pose. Então, o cidadão a convida, todo animado, para uma caminhada na orla. E aí? Vai dar um soco nele? Claro que não. Você sorri o seu melhor sorriso, oferece seu sacrifício pela paz no mundo e vai. Dá a mão pra ele, foca na conversa, na paisagem, no quem sabe beijo na boca. Abstrai o fato de que amanhã a sola do seu pé vai estar em carne viva. Esquece que aquele vestido vai ficar arruinado porque sentou num banco podre de sujo na beira da praia. No final, tudo correrá bem e você ainda descobrirá que o bofe é um cavalheiro e que não permitirá que você se esborrache nas malditas pedrinhas portuguesas.

Já se despencou pro fim do mundo pra ir a uma festa junina e chegou lá não tinha festa junina alguma? Fazer o quê? Emburrar? Esmurrar? Nada disso. A solução é rir do desavisado que lhe meteu nesta roubada. Rir junto com o desavisado. Mude de planos. Sente para jantar naquele restaurante que ele jura que é ótimo. A comida é uma merda? Ria da péssima escolha, fale mal do restaurante, do cozinheiro, da mãe do cozinheiro, dos transeuntes, da música insuportável muitos decibéis acima dos aceitáveis por um ouvido humano, da grana jogada fora. Tope matar a fome comendo um salsichão. Pare em todas as bibocas possíveis e impossíveis e, a cada parada, curta o prazer de descobrir que não há salsichão em lugar algum daquele fim de mundo. Acabe sua noite rindo muito, comendo um sanduíche no MC Donalds que você odeia e agradecendo a Deus porque até no fim do mundo existe um.

Bom, também tem o programa legal que vira programa cachorro e que vira programa legal de novo. Que tal findar uma noite romântica passando mal porque comeu como uma refugiada? Caiu dentro de uma churrascaria como se nunca tivesse visto carne na vida? Comeu uma pururuca sentindo suas artérias entupirem a cada mordida e ao final, sua barriga sarada ficou qual a de uma gestante? Deu refluxo? Tudo bem, ria do fato de sua noite romântica findar com ele dando suaves tapinhas nas suas costas como se você fosse um bebê entalado ou recostada porque se deitar vai morrer sufocada. Solte boas gargalhadas que só farão seu mal estar aumentar e registre a história pra rir de novo várias vezes, só de lembrar do mico.

Conseguiu captar? Percebeu que sentar num banco da pracinha dividindo uma latinha de refrigerante pode ser legal? Fila de banco, mercado? Agora, se a companhia não for legal, já era. Programa cachorro será sempre cachorro assim como programa legal também será sempre cachorro.

 

O passarinho

In humor on 03/06/2017 at 7:22 PM

Querido Brógui,

E lá pelas tantas da manhã, alvoroço em casa: havia entrado voando, pela porta da cozinha, um passarinho. Tadinho… Desorientou, perdeu o rumo e acabou dentro de casa. Onde ele está? Não sei, não vi. Demos uma olhada, e, como não o encontramos, caso encerrado. Deve ter saído pela janela.

Tô ouvindo um pio. É o passarinho. Ele ainda deve estar aqui dentro. Eu não tô ouvindo nada. Nem eu. Mas eu estou. Levantei do sofá, olhei nos cantinhos, ele deve estar encurralado em algum lugar. Nada. Nenhum rastro.

Tão ouvindo? É o passarinho. Tá doida? Eu não tô doida. Falo sozinha, mas ainda não estou ouvindo vozes. Nem pios.

Almoço. E agora? Ouviram? Agora ouvimos. Cadê o bendito passarinho? Procura, procura, procura. Vai ver que estamos ouvindo ele cantar lá fora, pensando que está aqui dentro. É. Deve ser isso.

Quem quer um docinho? Eu! Oxe! Olha quem está aqui! O passarinho! Na prateleira do móvel da sala. Escondidinho. Eu não vou tirar porque tenho medo. Pode deixar que eu tiro. Não precisou. Num rápido e corajoso movimento, saiu o bichinho voando, direto janela afora.

Ficou horas ali, assustado, sem conseguir sair da cilada em que se meteu. Preso sem estar preso. Como muitas vezes ficamos. Como o passarinho de hoje,  ficamos presos, apavorados, sem ver uma saída, quando ela é simples. É só sair voando. É só vencer a paralisia que o medo nos traz.

Claro que o medo é saudável, é necessário, é sobrevivência. Mas se desmesurado, embota, bloqueia o raciocínio, trava tudo, inclusive a visão da saída. Aquela janela que está bem na nossa frente, como estava a janela libertadora do passarinho, não é enxergada, ou fica longe demais, ou difícil demais. Aí, corremos o risco de acabar nos acostumando com aquela prateleira, com o desconforto, o medo torna-se parte de nós. Acabamos por esquecer que um dia quisemos sair voando. Esquecemos de que podemos voar, como é gostoso ser livre, o quanto perdemos por não nos arriscar (mesmo que só um pouquinho, um risquinho calculado que seja).

Olha só, passarinho: você me fez me lembrar de mim. Escapei de uma prateleira há pouco tempo. Olhei para a janela, respirei fundo e me lancei. Com o coração disparado, achando que talvez não fosse conseguir, mas abri minhas asinhas e voei.

PS: Tá, Querido Brógui… Eu sei que a metáfora foi pobre, mas dá um desconto porque há muito não escrevo. Tô meio enferrujada. Não serei como o personagem descrito por Fernando Sabino na obra “O Encontro Marcado”:

” Era um homem de certo talento, que cedo foi apanhado e se mediocrizou. Agora está tentando achar o caminho e não consegue, porque para descobrir o caminho para o talento, é preciso talento.”

Eu não me mediocrizei. Vou descobrir meu caminho de volta.

 

 

um ano

In humor on 01/06/2017 at 1:23 PM

Há um ano Mamãe saiu do hospital e voltou pra casa, após 52 dias de internação. No hospital, vivi com ela. Estava internada com ela.

UTI. De manhã, lá ia eu saber do boletim médico. Quadro estável, sem intercorrências. Visita à tarde. Quadro estável, sem intercorrências.

No dia seguinte, tudo de novo. Ou pior.

Respirando com cateter. Oxigênio. Acesso profundo. Direto na jugular. Não tinha mais como pegar a veia.

No dia seguinte, tudo de novo. Ou pior.

Sonda nasogástrica. Ela não se alimentava mais. Pedi para ir dar comida pra ela. Obtive autorização. Dava o almoço. Saía. Hora da visita, entrava. Saía de novo. Hora do jantar, entrava. Ia pra casa, banho, cama.

No dia seguinte, tudo de novo. Ou pior.

Infecção urinária. Sonda. Rins meia-boca. Pulmão ainda infiltrado. Coração não estava dando conta.

No dia seguinte, tudo de novo. Ou pior.

Atada ao leito. Estava entrando na fase do delírio. Ficava agitada. Trocava o dia pela noite. Também… quem consegue saber, dentro de uma UTI, se é dia ou noite?

No dia seguinte, tudo de novo. Ou pior.

Exames, exames, exames. O que ela tem? Estamos pesquisando. Os rins estão brigando com o coração, que está brigando com o pulmão. Estamos ajustando a medicação.

No dia seguinte, tudo de novo. Ou pior.

Sua mãe arrancou tudo durante a noite e não deixa colocar de novo. Tudo o quê? Tudo. Acesso, sonda, medidor de pressão e frequência cardíaca, cateter. E agora? Deixa sem. Vamos acompanhar. Foi bom. Durante o delírio, ela resolveu tudo. Acelerou o processo da alta. Provou que aquele monte de tubos e fios não eram pra ela.

O que ela tem? Aqui não é lugar pra ela. Os vizinhos dela estão em coma. Ela pode se recuperar no quarto. Estamos pesquisando. Exames, exames, exames. Depois de muita briga, muita Ouvidoria, alta para o quarto. Não tem quarto disponível. Como não tem quarto? Mais uma noite. No dia seguinte, tudo de novo. Briga, briga, pede, pede, não tem quarto.

Agora vai. Tem quarto. No sábado? Negativo. Não vou tirar minha mãe da UTI pra cair na mão de plantonista. Se o Rotina dá defeito, imagine o Fraldinha de plantão?

Agora vai. Quarto.

Eu, no sofazinho maldito, onde ou cabe a cabeça, ou cabe o pé. Noites mal dormidas ou não dormidas. Eu e ela. O sono é interrompido pelos seus delírios, suas conversas, reclamações – abaixa a cama, levanta a cama, me vira, me desvira, tira o cobertor, bota o cobertor, me dá água. O sono é interrompido quando tosse, quando engasga, quando começa a cantar, bate palmas. Mamãe, pelo amor de Deus! Vai dormir! Me deixa dormir!

Às seis da manhã, começa o entra-e-sai do quarto. Medicação. Pressão. Glicose. Café da manhã. Banho. Sinceramente, não sei quem estabelece estas rotinas. Quando o paciente começa a dormir, vem a colação, a medicação, a fisioterapeuta, a nutricionista, a visita médica, o almoço, a higiene, o técnico de enfermagem, o técnico do laboratório. Um agito sem parar.

Quando vai ter alta? O que está faltando? Ela está cada vez pior. O corpo dela está se deteriorando. A lucidez tá indo embora.

Briga, pede, chora, reclama, argumenta. Vamos pra casa.

Operação de guerra. Ambulância. Leito hospitalar. Cuidadora. Fraldas descartáveis. Remédios. Camisolas. Cadeira higiênica. Alimentação pastosa. Perda de tonicidade muscular, queda plantar, ainda delirando à noite.

Fisoterapia. Reabilitação. Aprender a virar-se na cama. Aprender a sentar, a ficar de pé, a segurar o copo, a controlar os esfícteres. Cadeira de rodas, andador, muleta, bengala. Comer sozinha, comida sólida, comprimidos sem ser macerados. Servir seu próprio prato, dar uma voltinha na casa, subir dois degraus. Tudo era motivo de festa, aplausos, uhus, lágrimas, sorrisos.

Um ano difícil, mas que passou. E rápido. Vitórias pequenas comemoradas como grandes conquistas. Grandes conquistas celebradas como uma grande vitória. Um ano de redefinição de paradigmas. O que importa? Quem importa? Quem se importa? Qual é a próxima meta? Viver um dia de cada vez, valorizar as pequenas coisas, agradecer, agradecer, agradecer.

Obrigada à Vida, por existir. Obrigada aos meus amigos, por estarem sempre lá, na alegria e na tristeza. Obrigada ao meu trabalho, por me proporcionar a tranquilidade material tão necessária. Obrigada pela oportunidade de aprendizado, por ter me tornado uma pessoa melhor, por ter salvo a minha Mãezinha.

Amém.

 

 

 

 

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