Fatinha

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A menina-octopus

In Sem categoria on 25/10/2008 at 12:55 PM

Querido Brógui,

Resolve requentar essa edição depois que vi uma apresentação em slides (Como é o nome muderno? Ah! Power Point.) com uma parada muuuuuito parecida com esse meu texto. Fiquei cabreira… Será que nego já tá me pirateando? Não deixa de ser um chiquérrimo ser vítima de um crime tão na moda…

“Querido Diário

Há coisas que só nós meninas somos capazes de fazer. Há determinadas habilidades desenvolvidas ao longo dos anos por força das circunstâncias que são inimagináveis para os meninos.
Uma delas é fazer xixi em banheiro público, meio acocorada, mas não totalmente, meio em pé, mas não totalmente, meio sentada, mas não totalmente.
Isso é totalmente contrário às leis da física, mas como não somos dotadas de mangueirinha e muitas não conseguem acertar o alvo, o resultado são os respingos na tampa e ninguém tá aqui pra sentar no xixi alheio. (Não consigo entender por que as ruins de mira não limpam os respingos ao sair do reservado. Custa passar o papel higiênico rapidinho para dar uma meia sola na tampa? Vai cair a mão?)
Agora, fazer xixi em pé é uma coisa muito simples se o banheiro vier dotado de um simples acessório que é o cabide para pendurar a bolsa. Quase nenhum banheiro público tem o tal do ganchinho. Podia ser um simples prego mesmo que enferrujado só pra quebrar o galho, mas não. Pra que simplificar nossa vida?
Também desenvolvi uma teoria (eu sempre desenvolvo teorias) para explicar a ausência do cabide: os banheiros são feitos por homens. Já viram uma mulher trabalhando de peão de obra? Não. Só homens. Inclusive nem há feminino para pedreiro. Seria pedreira? Pedreiro-fêmea?
Enfim, os homens não pensam como mulheres ou nas mulheres e assim nos vemos na complicadíssima tarefa de fazer xixi segurando a bolsa, quando não é a bolsa e a pasta ou a bolsa e a sacola, ou os três juntos. Conheço gente que conseguiu fazer xixi em pé segurando seu bebê no colo. Incrível! Não podia haver um cabide pra pendurar a criança?
Então fica assim: com uma das mãos você segura a bolsa, com a outra segura a porta porque o trinco está quebrado (já perceberam que as portas estão sempre com o trinco quebrado?), com a terceira mão segura a saia pra cima ou se estiver de calça comprida segura a beira dela pra não esfregar no chão todo molhado (lembrar da coisa da falta de mira), com a outra pega o papel higiênico e com a última dá descarga. Simples assim. Nós só precisamos ser um octopus pra ir ao banheiro. Isso tudo tentando manter o equilíbrio pra não encostar no fétido vaso sanitário.
Além da sessão de contorcionismo para poder atender ao chamado da natureza tem mais outra coisa que me deixa tensa ao ter que usar o banheiro coletivo: aquela rápida olhada pra ver se tem papel. Essa fração de segundo é o limiar entre a total felicidade e o desespero total. Com menina precavida que sou, sempre carrego meus lencinhos descartáveis que saco da bolsa com a outra mão.
Então, inclui na lista que fiz antes, a sexta mão para abrir a bolsa e sacar o lencinho que, para facilitar, está sempre nas profundezas do buraco negro que é a bolsa das meninas.
A terceira coisa que me deixa trêmula ao entrar no WC (repararam que nunca mais colocaram WC escrito na porta dos banheiros?) é dar de cara com a tampa do vaso abaixada. Respeito profundamente esse sinal dos deuses. Nunca levanto a tampa porque inevitavelmente alguém guardou a sua obra-prima para a posteridade e eu não estou aqui pra fazer descobertas arqueológicas.
Não sei porque o povo se nega a apertar o maldito botãozinho da descarga. Não nego que o tal botão é uma das coisas mais asqueirosas que possam existir para eu pôr meu lindo dedinho, é só parar um minutinho pra pensar onde os dedinhos alheios foram antes de tocar aquele mesmo botãozinho antes de mim. Mas eu abstraio isso e depois lavo as mãos abstraindo também que outras mãos infectas tocaram a torneira antes de mim. Em resumo, é tudo uma nojeira do começo ao fim, a partir do momento que você adentra ao banheiro.
Tenho certeza de que estão se perguntando acerca da utilidade da sétima e da oitava mão da menina-octopus. Já explico: com a sétima você atende o celular e com a oitava tira meleca pra colar na porta do banheiro.”

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Virose

In Sem categoria on 23/10/2008 at 2:33 PM

Querido Brógui

Depois de mais de um ano dando olé nas “viroses”, baixei no estaleiro. Por que viroses entre aspas? Porque agora, quando os médicos não sabem o que você tem, classificam a pereba de virose. Essa denominação serve para de um tudo, desde piriri até unha encravada, passando pela dor de cabeça e acabando na sensação de ter sido atropelada por um caminhão desgovernado.
Minha pediatra (pode parar de rir, eu tenho uma pediatra, tá?) diz que os médicos que estão saindo agora das faculdades não sabem nada. Ela diz que escolhe pela idade. Só serve médico velho. Já tem a listinha dela preparada, daqueles conhecidos, mas quando surge uma necessidade de algum profissional diferente, ela liga pro consultório e pergunta quantos anos tem o médico. Menos de cinqüenta anos, nem pensar. Com cinqüenta anos de idade, ao menos o cara tem uns vinte de profissão. Já é alguma coisa. Eu concordo com ela, trocando apenas o adjetivo “velho” por “antigo na praça” ou “experiente”.
Há alguns milênios atrás, a moda era stress. Eu ia para o médico, com uma baita infecção na garganta e ele perguntava: ”Você está estressada?”. Ia mostrar uma irritação na pele e vinha a mesma pergunta. Ia tratar de uma anemia, a mesma coisa. Naquele período, eu já entrava no consultório dizendo que minha vida estava muito bem, obrigada, e que não estava sofrendo de nenhum distúrbio psicossomático.
Depois da moda do stress, veio a moda da alergia. Tudo tinha fundo alérgico. Fiquei preocupadíssima, a ponto de pensar que tinha alergia a mim mesma. Fiz testes alérgicos aos montes e, no último deles, quando peguei o resultado, uma amiga me disse, ainda no elevador, que eu tinha que viver numa bolha de plástico, que nem aquele personagem do John Travolta naquele filme. Lembra? “O rapaz na bolha de plástico?” Um dos micos que esse grande ator pagou antes de ser resgatado das profundezas do ostracismo pelo Tarantino e ir fazer Pulp Fiction. Não lembra? Não viu? Nem era nascido? Tudo bem, não perdeu nada mesmo.
Ano passado, depois de duas semanas bombardeada, de cama, achando que não iria sobreviver, fui à emergência de um hospital. Fiquei ho-ras esperando. Acho que eles deixam o cabra esperando na emergência para ter certeza de que é emergência mesmo, porque se não for, ele se levanta e vai pra casa (ou pro cemitério). Menos um pra atender.
Nesse dia, a médica me atendeu, disse que eu tinha tido não apenas uma virose, mas três. Isso mesmo. Emendei uma na outra, apresentando sintomas diferentes. Disse também que eu aparentemente estava com uma crise alérgica. Perguntou ainda se eu estava passando por um momento de muito stress.
Saí de lá com a certeza de que a moça estava atirando pra tudo o que era lado. Não tinha como errar. Ou era virose, ou alergia, ou “pobrema de neuvos”.
De lá pra cá, nunca mais fiquei doente daquele jeito e atribuo isso às doses diárias de Targifor C. Quem receitou? Minha pediatra, lógico.

Então é Natal

In Sem categoria on 20/10/2008 at 12:53 PM

Querido Brógui

“Então é Natal…”
Ô musiquinha enjoada! O gênio conseguiu pegar uma canção maravilhosa e transformar numa execrável versão cantada de forma churumelosa  e fazer sucesso com isso. Genial! Eu nunca tive uma idéia brilhante dessas. Das muitas idéias brilhantes que tive, nenhuma me rendeu sequer um centavo.
Descobri que já é Natal, pelo menos para o comércio, quando entrei nas Lojas Americanas e estava tocando essa versão ad nauseam. Sim, porque não basta você ter que ouvir uma vez, você fica tomando essa lavagem cerebral por no mínimo trinta minutos (que é o tempo que leva para entrar na loja, achar o que quer, comprar o que não precisa e bater em retirada).
Em frações de segundos, ouvindo Simone, você realiza que é Natal, que mais um ano se passou, que você não conseguiu executar tudo o que planejou, que aquelas promessas do final de 2007 foram pras picas, que o seu 13º salário também já foi pras picas e que agora já era.
Não, Querido Brógui, nada de tristeza. Agora é hora de se preparar psicologicamente para encarar a chatíssima alegria de final de ano.
Se você tem família grande, problema na certa. As festas de final de ano são perfeitas para reunir todas aquelas pessoas que, por um motivo justo, não se vêem e nem se falam durante todo o ano. Que motivo justo? Elas não se suportam, claro. Pertencer à mesma família não passa de um descuido cármico. Às vezes essas pessoas nem mesmo compartilham o DNA, então temos o cunhado, o primo de quarto grau, o tio do primo do cunhado de quarto grau. Juntamos isso à bebida, ao excesso de comidas engordativas e pronto: barraco garantido.
Se você não tem família ou tem um núcleo familiar reduzido, problema também. Como encarar sem depressão os olhares piedosos das pessoas que descobrem que não vai rolar ceia na sua casa pelo simples fato de que não tem ninguém pra comer peru com você? Dureza.
Agora, o pior é quando você não dá a mínima pra esses festejos de final de ano. Tem que ser muito macho para admitir perante o Universo que anda pra isso tudo, que Natal é a celebração do nascimento de Jesus e não pretexto pra trocar presentes e que na virada do ano nada excepcional acontece além de ter que comprar um novo calendário. Na maioria das vezes, pra não ter que ficar se justificando o tempo todo pra todo mundo, você entra no jogo e finge. Assim todo mundo fica feliz e o saldo final é menos um pária no mundo. Tudo bem que para entrar no jogo é necessário ter cacife pra comprar lembrancinhas (coisa de pobre!) pra todo mundo, bater chifre no shopping, dar tapinha nas costas do colega de trabalho que lhe sacaneou o ano inteiro, estapear-se no mercado pelo último pernil do freezer. Tudo bem, já que optou pela hipocrisia, leve-a às últimas conseqüências.
E o tal do amigo oculto? Você por acaso alguma vez recebeu de presente uma coisa de que realmente gostou? Não vale aquela vez que passaram a listinha na qual todo mundo, na maior cara de pau, escreve o que quer ganhar. Assim é fácil. Aliás, eu acho que é tão sem-graça que melhor seria estipular um valor e todo mundo colocar aquela quantia num envelope e trocar os envelopes. Melhor ainda: cada um compra o que quer ganhar, entrega pro seu amigo oculto que lhe entrega de volta no dia da confraternização. Perfeito mesmo é acabar com esse negócio de amigo oculto. Poupa tempo, trabalho, neurônios, frustração, uma nova ida ao shopping para trocar o presente, a cor, o tamanho, encarar as vendedoras cheias de má vontade por estarem ali trabalhando sem ganhar comissão.
Seja lá a que grupo você pertença, aos felizes genuínos, aos hipócritas conformados ou aos párias, antecipadamente desejo a você um Feliz Natal e um Próspero Ano Novo (mais clichê que isso, impossível).

Só pra ver qualé

In Uncategorized on 20/10/2008 at 11:26 AM

Querido Brógui

Estamos em fase de testes, pra ver qualé.

A quem interessar possa

In Sem categoria on 17/10/2008 at 6:59 PM

Querido Brógui

Uma leitora traumatizada hoje me abordou para dizer que gosta tanto do que eu escrevo que morre de vontade de repassar os meus textos, mas não o faz porque eu proibí. Que fique registrado: superem o bloqueio emocional, essa minha fase tiranossaura, que ameaçava de morte quem divulgasse meu besteirol, já passou. Repassem, repassem, repassem. Enviem para toda a sua lista de amigos e para a dos inimigos também. Agradeço com os olhinhos marejados de lágrimas essa demonstração de apreço.  Beijocas. 

Outra coisa: descobri que o prazo de validade das publicações aqui na página do Terra é de um ano. O que eu escrevi em outubro do ano passado foi para o limbo da Internet. Então, a hora é essa: quer ler ou reler a produção de novembro de 2007, corre lá no arquivo antes do final do mês. Caso contrário, vai ter que cantar , aos prantos,  "Quem comeu, comeu, quem não comeu, não come mais."

PS: Essa vai dedicada à Lili, a traumatizada. Valeu o toque!

PS 2: mandei você ir ler a produção de novembro, não foi? Pois é, foi mal. Em novembro não teve produção alguma, eu estava de molho, me recuperando de uma cirurgia. Pra não perder a viagem, leia a de dezembro.

 

Cretinices

In Sem categoria on 17/10/2008 at 6:20 PM

Querido Brógui,
Essa edição é em homenagem a nós, professores, e à nossa árdua batalha no dia-a-dia. Não é inédita, aliás, pra falar a verdade, nem requentada mesmo é. Digamos que ela é "trequentada". Ela é datada de 2002, não havia nem ainda o "Querido Diário" e, quando ele nasceu, eu requentei. Sendo assim, é a terceira vez que empurro o mesmo texto pela sua goela abaixo e ele ainda é, seis anos depois, a fiel, pura e cruel realidade de meu alunado.
Lá vai:

"Querido Diário,

Neguinho fica por aí espalhando que essa humilde e simpática professora de História é grossa, que é malcriada, que tem tolerância zero. Já me disseram que eu rosno e que meu olhar irado congela qualquer criatura num raio de cem metros.
Após o meu relato, diga sinceramente se a cretinice do alunado tem limites. Se você não é professor ou nunca teve contato com crianças, atire a primeira pedra.

Cretinice 1
Sete horas da manhã, cara inchada, ainda com cheiro de travesseiro, chegando ao meu local de trabalho, sabendo que vou ter que encarar dúzias de adolescentes e pré-adolescentes e crianças e colegas e etc, etc, etc.
“A senhora vai dar aula?”
“Não, eu não vou dar aula, só vim aqui porque acordei as cinco e meia da manhã e como não tinha nada melhor pra fazer eu vim aqui passear e ver se você estava bem de saúde.”

Cretinice 2
Mesmo contexto.
"A senhora veio?”
“Não, eu não vim. O que você está vendo é um holograma, está tendo uma visão do inferno, você está sonhando e tendo um pesadelo.”

Cretinice 3
Mesmo contexto.
“Por que a senhora veio?”
“Por que você veio?”

Cretinice 4
Dia de prova.
“Professora, eu não assisti a nenhuma aula da senhora. O que eu escrevo na prova?”
“Seu nome. E vê se põe letra maiúscula.”

Cretinice 5
O trabalho é para ser feito em folha separada para que eles me entreguem no final da aula.
“Precisa colocar o nome e a turma?”
“Não. Ontem comprei pilhas novas pra minha bola de cristal.”

Cretinice 6
Seis meses depois de iniciado o ano letivo, o aluno pergunta: “Qual é mesmo a matéria que a senhora ensina?”
“Grego arcaico.”

Cretinice 7
Acabo de passar um exercício no quadro.
“É pra copiar?”
“Não. É que eu estava com vontade de me sujar toda de giz, cheirar um pouquinho de pó e ficar com câimbra no braço.”

Cretinice 8
Continuando a cretinice nº 7, o aluno copia tudinho.
“É pra fazer?”
“Não. Leva pra casa que sua mãe responde pra você.”

Cretinice 9
Já em desespero, com a bexiga quase explodindo, pego a bolsa e aviso que vou descer.
“A senhora vai pra casa ?”
“Não. Vou usar o banheiro aqui da escola mesmo. "

Cretinice 10
Dando continuidade, provando minha tese que cretinice não tem limites, o aluno retruca:
“Vai fazer o quê?”
“Brincar de amarelinha.”

Está com pena dos alunos? Tá achando que sou demasiadamente cruel, irônica, debochada e deseducadora? Pois você não entende nada de educação.
Passados alguns meses nessa salutar convivência, ao ouvir perguntas cretinas, apenas digo em voz baixa e com um sorriso sarcástico nos lábios: ”É pra eu responder ou se trata de uma pergunta meramente retórica?” E o aluno, que é cretino, mas não é burro, rapidamente responde: “É meramente retórica.”
Viu? Eles sabem o que é retórica. Sou ou não sou uma professora de mão cheia?

Esse texto é dedicado à Michelle, minha ex-aluna, futura professora, provando que ainda há almas a serem salvas nesse mar de cretinice e que, por essa almas, vale o sacrifício.

A máquina de lavar

In Sem categoria on 13/10/2008 at 4:07 PM

Querido Brógui

Segunda-feira, dia de corno. Nada como uma edição do Querido Diário requentada para começar bem o dia. Essa é do início de 2007.

“Querido Diário

Cássia está com tendinite. Não veio trabalhar essa semana toda. Aqui em casa a roupa é lavada semana sim, semana não. Como essa era a semana sim que virou semana não, na sexta-feira percebi aterrorizada que não me restava limpo um pé de meia, uma blusinha, uma roupinha de ginástica, nadinha. Minhas gavetas estavam completamente vazias e o cesto de roupa suja completamente cheio. O meu terror veio da dupla constatação: 1) eu teria que encarar uma lavação de roupa; 2) tenho bem menos roupas do que gostaria de ter. Das duas, a última foi a que mais me doeu, é claro.
Então, cheguei ontem do curso já preparada psicologicamente para dar uma de peniqueira. Enquanto almoçava, lembrei-me vagamente de que não dominava a complexa técnica de operar a nova máquina de lavar. Pode parar de rir, essa é uma tarefa difícil, sim, nem vem. Poucas pessoas a sabem executar com maestria.
Bem, como penica que é penica não foge à luta, peguei o cesto de roupas sujas, fui lá pra trás, dei uma olhadinha nos botõezinhos daquela coisa (é botão que não acaba mais, a outra máquina só tinha o de ligar e o de desligar), tentei adivinhar como aquilo funcionava, não consegui e acabei por me render à leitura do Manuel.
Na máquina antiga, a gente primeiro enchia de água e depois botava a roupa. Foi o que fiz, coloquei a máquina pra encher enquanto lia as instruções. Aí, dez páginas depois, chegou numa parte que dizia: “nunca encha a máquina de água antes de colocar as roupas”. Danou-se. Já comecei errando. Desliguei rapidinho e pensei em esvaziá-la pra botar a roupa e depois encher de novo. Só que no Manuel não ensinava como tirar a água da máquina. Não sucumbi à tentação de tirar a água de dentro dela com um balde, achei que seria burrice demais, até para mim. Decidi colocar a roupa com ela cheia mesmo, qual o problema? Na medida em que fui colocando a roupa, o nível de água foi subindo, subindo. Simples lei da física aplicada à atividade peniqueira. Enquanto isso, continuei lendo as dicas do Manuel e cheguei na parte que ele dizia: “o nível da água não pode passar do quarto furo da bacia.” Que bacia? A bacia aqui de casa não está furada… É até relativamente nova… Não, sua Anta, a bacia da máquina, disse-me o Manuel. Parei de colocar roupa antes que transbordasse, liguei novamente a máquina e ela começou a bater.
Daí o Manuel me disse: “coloque o sabão em pó e o amaciante nos recipientes devidos.” Danou-se de novo! Esqueci que tinha que colocar sabão em pó e amaciante. Abri a máquina pra colocar o tal do sabão em pó e o amaciante e ela parou de bater. Pronto! Quebrou. Não, sua Anta, toda vez que você abre a tampa, ela pára. Ah, tá. E cadê os tais dos recipientes devidos? Achei. Comecei a puxar e o treco não abria a tampinha. Lógico, sua Anta, não é de puxar, é uma gavetinha dividida em duas metades. Qual será a metade pra botar o sabão? E cadê o sabão? Onde será que a Cássia esconde o sabão em pó e o amaciante?
Vitória! Imagina se eu, com dois cursos superiores completos, mais de mil livros lidos, curso de inglês na Cultura, vinte anos de magistério e dez anos de academia de ginástica, iria ser derrotada por uma simples máquina de lavar! Fiquei contemplando minha façanha, embevecida, toda orgulhosa, quando de repente a bicha parou de bater de novo. Agora danou-se mesmo. Dessa vez eu consegui quebrar a máquina. Minha mãe vai me matar e o pior é que depois de morta ainda vou ter que lavar essa montanha de roupa no tanque!
Fiquei alguns minutos olhando para a máquina, em estado de choque, tentando inventar uma boa mentira pra contar pra minha mãe e ao mesmo tempo pensando como iria fazer pra tirar a roupa e a água de dentro daquela meleca. Repentinamente, ela começou a bater de novo. ???? É que o ciclo de lavagem completa tem uma batidinha e um intervalo pro molho, outra batidinha, outro intervalo, sua Anta! Legal, entendi.
Dei conta de toda a roupa da casa após três ciclos de lavagem completa. Pendurei tudo na corda, subindo e descendo as escadas para o terraço com as bacias cheias. Pura aeróbica.
Finalizei a missão com a alma lavada e enxaguada, como dizia Odorico Paraguaçú. Nada como um servicinho de corno pra deixar a pessoa livre de quaisquer problemas existenciais, emocionais, sexuais ou financeiros."

Pensando gordo

In Sem categoria on 12/10/2008 at 10:36 AM

Querido Brógui

Rapidinho: na mesma revista, veio uma matéria sobre o uso da terapia cognitivo-comportamental para emagrecer. Pobres psicólogos sérios que trabalham nessa linha… Além de solução mágica para o TOC, depressão, ansiedade, stress pós-traumático, fobias, vícios em jogo, bulimia, agora vão ter que dar conta dos gordinhos. O pior é ter que explicar para essa galera que terapia não é milagre, que o processo pode ser rápido ou não, que é necessário separar o joio do trigo…
Mas não é isso que quero falar. Lá no meio da matéria tem um quadro “O pensar gordo e o pensar magro”. Depois de ler atentamente como funciona a cabeça de um gordo e de um magro, concluí que sou, irremediavelmente uma magra com cabeça de gorda. Eu busco conforto na comida, às vezes como compulsivamente, tenho fome de doce, quando perco peso retomo meus horríveis hábitos alimentares ao invés de prosseguir na reeducação alimentar, quando engordo penso que jamais vou conseguir perder aquele quilinho, me sinto injustiçada porque tem gente que come e não engorda, não tenho hora certa pra comer.
Acho que vou ter que trabalhar isso com a minha terapeuta.

Diarréia mental

In Sem categoria on 12/10/2008 at 10:21 AM

Querido Brógui

Como hoje é domingo, não vou lhe servir uma edição requentada. Pra você, com amor, uma fresquinha.
Estava eu folheando a revista em busca de alguma coisinha leve para ler, o que é difícil atualmente em meio a essa crise no mercado financeiro que deixa até os modestos poupadores de cabelo em pé. O pior é que quanto mais os especialistas tentam me tranqüilizar, mais nervosa fico, porque esses caras… não sei não. Mas, enfim, encontrei uma pérola que estimulou a minha produção de veneno. Pegue rapidinho seu soro anti-ofídico pra se garantir.
O título da entrevista com a atriz Cláudia Alencar é: “Ama a si próprio como a ti mesmo”. Vou repetir: “Ama a SI próprio como a TI mesmo”. FALA SÉÉÉÉRIO, como dizem meus alunos. Num relance, a dona já diz a que veio. A cidadã já começa mal, misturando a primeira com a segunda pessoa. Normal.
A atriz bate ponto na telinha na novela pra lá de trash “Os Mutantes” da Record, que, a propósito, aconselho dar uma olhadinha por três minutos. Não passe desse tempo, os danos cerebrais podem ser irreversíveis. Tudo certo, tá ganhando seu dinheirinho honesto, mas isso não é salvo-conduto para abrir sua torneirinha de asneiras.
Numa tentativa de travar um papo-cabeça com a entrevistadora, a criatura diz que o “ama ao si próprio como a ti mesmo” vem da filosofia hinduísta que deu origem a cristianismo. Hã? De onde ela tirou essa informação? Deixa pra lá.
Gentilmente, ela é corrigida: “Não seria ama ao próximo como a ti mesmo?” OK. Há vida inteligente no mundo jornalístico. Ponto para a entrevistadora.
Acho que a atriz leva muito a sério sua filosofia de vida. Só quem ama a si própria como a ti mesma tem uma auto-estima tão inabalável a ponto de falar tanta abobrinha com tanta autoridade sem perder o rebolado. Admirável.
Sentido firmeza nas suas palavras, ela continua a bostejar, afirmando que os físicos dizem que com a maternidade a pessoa entende o lado divino do ser humano e passam para uma segunda dimensão. Deixa eu ver se eu entendi: de acordo com a física, há uma segunda dimensão, que tem a ver com o lado divino do ser humano e só quem tem passe livre para essa dimensão são as mães. Tenho amigas que são mães e que jamais mencionaram ter mudado de dimensão. Será que as mães podem transitar livremente entre as dimensões? E por que elas nunca me contaram como é por lá? Será que é algum segredo guardado tipo aquelas sociedades secretas? Vou investigar isso, detesto me sentir excluída. Se há uma outra dimensão, eu quero ir, nem que tenha que ter um filho para isso.
Para finalizar a diarréia mental, a moça, que também escreve poesia, arremata: “A ansiedade é falta de delicadeza com o andar da natureza.” Deixa eu ver se entendi. (…) Não, não entendi.

Tá com problema?

In Sem categoria on 08/10/2008 at 6:46 PM

Querido Brógui

Olha só: eu perguntei se era pra parar de requentar e você não respondeu. Como diria o “velho deitado”, quem cala consente. Sendo assim, mais um texto direto do microondas, em “homenagem” à derrota do Candidato Universal…

“Querido Diário

“Você que tem problemas com SPC, Serasa, títulos protestados, nome sujo na praça, falta de crédito em bancos, problemas com o dízimo, participe da Corrente da Prosperidade na Igreja Universal.” Assim anunciou o carro de som.
Então, você que está na merda total trate de se organizar, abrir um espaço na sua agenda e dar uma passadinha na Universal hoje ainda, que é o dia da Corrente da Prosperidade.
Mesmo que você seja um safado de carteirinha, tome pirulito da boca da criança, tenha feito compras com o décimo terceiro salário que não saiu, deixou rolar o carnê da Casas Bahia, mandou a Casa e Vídeo pra casa do cacete ou mesmo enfiou o cacete na sua mulher, não tem problema. Vai lá que o pastor resolve.
Se deixou de pagar o dízimo, aí eu não sei como vai ser. É tipicamente um conflito de interesses. Afinal, como o pastor vai intervir a seu favor se você não pagou pelos serviços prestados? Aliás, se você tá tão mal na fita, o serviço não foi prestado e então é caso de apelar para o Código de Defesa do Consumidor. Eu não sei como funcionam as instâncias do tribunal divino, mas creio que você, contratante, pode apelar para a exceptio non adimpleti contractus, ou a exceção do contrato não cumprido. Não sabe o que é isso? Tudo bem. Eu também não sei se escrevi a expressão em latim corretamente. Em síntese, quer dizer que você pode deixar de cumprir sua parte no contrato se a outra parte também descumpriu a dela.
Se não for o suficiente, amanhã é o dia da Sessão do Descarrego. Se sua dureza é devida à macumba, nome na boca do sapo, pomba-gira, mau-olhado, vai lá. Se for preciso o pastor lhe quebra todo de porrada. Você vai direto pro Souza Aguiar, mas o encosto sai (até porque não tem encosto que agüente uma internação no Souza Aguiar). Com encosto ou sem ele, você ainda pode meter uma ação de indenização no pastor. É dinheiro certo. O STJ garante (obs: na época tinha acabado de ser publicada uma decisão nesse sentido). Daí resolve-se o problema inicial. Tudo não começou com a falta de dinheiro? Pronto. A Universal resolveu de um jeito ou de outro.

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