Fatinha

Archive for the ‘humor’ Category

Rebeldia construtiva

In humor on 24/11/2015 at 10:20 AM

Querido Brógui,

O mundo está muito esquisito. Mesmo. Tanta coisa ruim acontecendo, pessoas matando pessoas, pessoas matando a natureza, pessoas levando o sofrimento para outras pessoas. Isso tudo me leva de um extremo ao outro. Ou vários extremos, eu diria. Passo da tristeza à apatia, sigo para à euforia, parto para a raiva, caio na hiperatividade e finalizo na falta de vontade de escrever, que é o meu termômetro de felicidade.

Não tenho me permitido ficar bem, nem aproveitar de verdade o breve e fugaz brinde de estar viva. Tomo o sofrimento alheio como o meu próprio, uma empatia às vezes absurda, que até tem seu fundo filosófico nas palavras de Dalai Lama – enquanto houver um ser em sofrimento, todos estaremos em sofrimento. Só que eu exagero e esqueço que o próprio Dalai Lama recomenda que sejamos felizes.

Hoje eu decidi me opor a mim mesma e a essa palhaçada de ficar me martirizando pelo simples fato de que a minha vida – ainda que com atropelos, tombos, mancadas e trombadas – é boa. Decidi que não vou me sugar pra dentro de um buraco só porque o mundo está indo, inevitavelmente, pra dentro dele. Que minha resistência ao Mal será ficar cada vez mais alegre, positiva, esperançosa. Que vou redimensionar minhas prioridades e desprezar o que é desprezível (parece redundante, e é mesmo).

Vou começar novamente a rir de mim e de meus desastres – como o galo que fiz ao dar uma cabeçada na janela porque fui olhar pra fora e esqueci que ela estava fechada.

Vou recomeçar a rir do que não tem a menor graça, mas que exatamente pelo bizarro é que é engraçado – como o ladrão que na maior cara de pau bateu no vidro do meu carro e pediu pra eu abrir porque ele queria me tomar o celular.

Vou cair da cadeira rindo quando no trabalho me pedirem alguma coisa absurda como se fosse a coisa mais normal do mundo – tipo dar a  mesma informação pela milionésima vez.

Tratarei como surreal que é que, num mundo em crise, ainda haja alguém que defende a violência como solução, que continue cultivando burros preconceitos (outra redundância), que não consiga ver que atitudes individuais comprometem o coletivo.

Minha rebeldia não será destrutiva. Demonstrarei minha rebeldia resistindo à infelicidade, à amargura, rindo pra caralho, falando bobagem, dando beijo na boca, enchendo a porra do saco dos outros, ouvindo música no trabalho e dançando sentada na cadeira, lendo e, principalmente, escrevendo pra você. Vou liberar o Querido Brógui da quarentena.

Sejamos felizes juntos.

 

 

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Ireland

In humor on 24/05/2015 at 6:49 AM

Querido Brogui,

O post da Escocia so consegui publicar hoje, quando ja estou indo embora de Dublin. A  internet aqui e la sao muito ruins. Por um milagre, estou no aeroporto e consegui salvar o post perdido e comecar este.

O clima aqui e menos instavel do que em edimburgo, mas me disseram que tive sorte. Bem, acho que os Leprechauns  foram com a minha cara. Nao choveu nem um dia e ontem sai so com dois casacos.

tao chamando pro embarque. Back to London. See you!

Vai saberpq o maldito tecladinho aumentou a letra e colocou em negrito…

Scotland

In humor on 24/05/2015 at 6:36 AM

Querido Brógui,

Dia chuvoso por aqui. A cada esquina dobrada, vem aquele vento gelado.

O que dizer de Edimburgo? Minha primeira impressão, quando cheguei, foi de aconchego, apesar do frio, do vento, da chuva, esta cidade é quente. Parada na frente da estação de trem, olhando para o mapa, olhando pra os lados, a conhecida sensação de estar completamente perdida. Não me apavoro. Chego sempre onde quero. Uma senhora se aproximou e perguntou :”Are you lost? ” Daí, juntou uma comissão de senhoras para tentar me indicar o caminho. Tá vendo aquela ladeira? É por ali.

Lá fui eu, como em todos os dias, sobe pirambeira, desce escada, sobe escada, desce pirambeira. Pega guarda chuva, enfia gorrinho na cabeça.

Perdida? Sempre. Mas sempre um escocês para me sorrir, fazer uma piada, dizer que meu inglês is perfect, and wishing a nice stay.

Os dias são longos, nove da noite é dia claro. Apesar disto, não deu tempo de ver tudo. Nunca dá.

Next stop, Dublin. See you there!

Carro voduzado

In humor on 04/01/2015 at 12:20 AM

Querido Brógui,

Thomas Edison disse: “Talento é 1% inspiração e 99% transpiração.”. Tendo em vista que transpiração é o que não me falta no momento dado o calor absurdo no Rio de Janeiro, decidi ignorar a questão da inspiração. E, já que estou apelando para as citações, António Lobo Antunes não leva muito em conta esta coisa de inspiração.Ele diz que “Escrever ainda é fundamentalmente uma questão de trabalho, trabalho, trabalho.”. No meu caso, confesso que realmente ás vezes falta-me inspiração, às vezes sobra-me preguiça e às vezes uma coisa é somada à outra.

Esta prolixa introdução não tem nada a ver com o que eu resolvi escrever hoje. Foi mera embromação, ok? Aguardando as musas fazerem seu trabalho.

Minha historinha é sobre a terceira traseira amarrotada do meu pobre Batmóvel em menos de um ano. Acho que você já tá sabendo do babado, mas vou resumir mesmo assim. Eu estava parada – nas três vezes – o que me exonera da alcunha de ruim de roda. Dirijo há muitos e muitos séculos e nunca causei nenhum dano a terceiros. Já tive alguns veículos e jamais havia sofrido qualquer tipo de colisão, abalroamento ou seja lá qual for a classificação dada à batida. Mas este atual…

Pensei novamente o que havia pensado quando da segunda batida: olho gordo é uma merda! Tem alguém (ou alguéns) voduzando meu carro. Não é possível!  Fiquei com isto na cabeça, até que alguns amigos falaram a mesma coisa.

Foi-me sugerido reza, benzedura, água benta, olho de tigre, pimenta vermelha. Cabe dizer que, dentro do porta-luvas, carrego uma carranca, uma imagem de Nossa Senhora Aparecida e um adesivo do Calvin. Até eu comprar este carro funcionaram muito bem, mas parece que agora preciso de algo mais poderoso. Estou aceitando doações de amuletos sem distinção de credo e vou usá-los todos, porque tá foda.

Amigos também me aconselharam a passar o carro adiante, junto com a mandinga que botaram nele. Não sei se vai dar agora com o tal do IPI majorando os preços em até 15%, mas vou tentar. Também me disseram que é a cor. Sempre tive carro vermelho e agora comprei um preto, que concentra as energias negativas. Sei lá se absorve energia negativa, mas que absorve todo o sol e calor do planeta, isso absorve.

Outra coisa observada por amigos é que o mau olhado tá indo todo pro carro, o que até certo ponto é bom. Antes ele do que eu. Pelo menos ainda não precisei fazer lanternagem nem trocar peças da minha traseira.

Afora isto, é impressionante eu já saber de cor todos os procedimentos para acionar seguro, conseguir calcular quantos dias vou ter que esperar o conserto ser finalizado, o mecânico da autorizada me conhecer pelo nome, ser recebida de braços abertos pela mocinha da locadora de veículos que vai me franquear o carro reserva.

Para finalizar, um toque de irrealidade no contato telefônico com a seguradora:

“O sinistro foi onde?

“Avenida Nossa Senhora de Copacabana.

“Que bairro?

“Hein? A ligação tá ruim. Você perguntou o que?

“Em que bairro fica a Avenida Nossa Senhora de Copacabana.

“Em Copacabana.

“Em que cidade?

“Em que cidade? Você tá perguntando em que cidade fica Copacabana?

“Sim.

Sem comentários.

O cérebro da criatura

In humor on 15/12/2014 at 10:32 PM

Querido Brógui,

Há alguma coisa muito errada no cérebro de uma criatura que consegue viajar sozinha para o Leste Europeu, sem falar uma palavra da língua nativa – e ainda assim consegue pedir informações -, que anda pra lá e pra cá, pega ônibus, trem, metrô, avião, barco, encontra todos os lugares que quer, mas não consegue achar o próprio carro no estacionamento do shopping.

É muito intrigante o cérebro da criatura que procura desesperadamente o celular – que está na sua mão – dentro da bolsa ou enche o copo com água e sai de casa com sede ou guarda cuidadosamente o vidro de perfume dentro da caixinha dos óculos.

Há algo de muito estranho no cérebro da mesma criatura cujo trabalho exige um eterno fazer contas, atestar faturamentos, montar planilhas de Excel, que sabe até o número de série de uma copiadora instalada em Cabrobó do Norte, mas não consegue conferir o troco na padaria e nem ao menos lembra quanto pagou pelo quilo do bacalhau que comprou ontem.

No cérebro desta criatura esquisita cabe a leitura de quatro livros ao mesmo tempo, mas não cabe memorizar a execução de um movimento na aula de ginástica. Se forem dois movimentos combinados, piorou. Se tiver que movimentar simultaneamente braços e pernas, começa a exalar um cheiro de borracha queimada: são Tico e Teco tacando fogo na massa encefálica.

Este ser exótico ouve punk rock para poder abafar barulhos externos e conseguir se concentrar nos estudos. Consegue falar ao telefone e responder a uma pergunta de um colega enquanto lê um e-mail, mas não consegue dirigir e conversar ao mesmo tempo. Pula de um assunto para o outro numa velocidade estonteante, mas é capaz de ficar horas em silêncio.

Há algo de muito errado no cérebro desta criatura que vos escreve, que não tem a menor paciência para esperar, mas insiste em ser pontual. Que tem suas coisas milimetricamente desorganizadas e não perde nada. Que não repara em nada, mas percebe muita coisa.

Como funciona o cérebro desta criatura? Sei lá. Só sei que é assim.

Os sons da praia

In humor on 22/11/2014 at 3:57 PM

Querido Brógui,

Interrompo minha leitura, coloco o livro no colo, fecho os olhos e passo a ouvir os sons da praia.

Como um rádio, vou sintonizando as estações. No fundo, o barulho das ondas, criando um clima. O ritmo do mar torna-se como o de uma música, dá até pra saber quando virá a próxima. Mudo a estação.

A conversa da moça ao lado com seu bebê. Pergunta a ele se ele está gostando. Dois rapazes, aparentemente iniciando um relacionamento. Falam sobre suas famílias, seus trabalhos. As cadeiras são arrastadas mais pra perto uma da outra. As vozes diminuem de volume. Parece que vai rolar…

Outra estação: barulho de mais uma barraca sendo fincada na areia. Três cadeiras. Três amigas. Passa o filtro aqui pra mim? Meu cabelo tá um ó. Ontem eu tava muito doida, peguei o cara errado! Risos.

Olha o Groboooo! Biscoito Groboooo! Sal-gado e doceeee! Quanto? Cinco real. Tudo isso? Aumentou? É verão. O mercado tá aquecido. (ambulante economista.) Quero não. Valeu. Olha o Grobooooo! Biscoito Groboooo! Sal-gado e doceeeee!

Óculos de sol! Bronzeador! (ninguém vende filtro solar e mais: ainda existe aquele travesseirinho de plástico com um óleo vermelho feito sabe Deus com que ingredientes.) Doura pelos! Cangão! Cangão! (é uma canga gigantesca que abriga facilmente toda uma família italiana.)

Açaí! Açaí! Queijinho na brasa! Sinto o calor do fogareiro perto do meu pé. Com orégano? Pimenta? Curry? (curry? esta é novidade.) Mel? Mal passado ou bem passado? Dá pra fazer desconto não. O queijo não é meu e o dono conta o dinheiro no final da praia. Valeu, Princesa! (este vendedor é antigo, do tempo em que os homens ainda chamavam as garotas de “princesa”.)

Biquini! Pode experimentar! Tem espelho de corpo inteiro! Parte de cima, parte de baixo!

Camarão na brasa! (tenho quase certeza de que, assim como o queijinho na brasa, o camarão também foi proibido pela vigilância sanitária. quem liga?) Falando em vigilância sanitária…

Olha o mate! Beba beba beba maaaaate! É peteleco no dente, soco na mente! Tá gelaaaaaado! Faz um selfie segurando o copo e manda pro grupo do zapzap! (sensacional!) Beba beba beba maaaaate! (O vendedor de mate é o meu preferido. Com aqueles dois galões pendurados, um em cada ombro: um com o mate, o outro com a limonada. Um clássico das praias cariocas – junto com o Grobo -. Ninguém sabe ao certo de onde vem a água pra fazer o mate e muito menos como os limões são espremidos. Não adiantou tentarem empurrar o mate industrializado no copinho. O sabor vem da sujeira. Ninguém nunca viu aqueles tonéis serem lavados e desconheço como aquele treco fica gelado o dia inteiro. Como também nunca tive notícias de morte por causa do mate com limão…)

Cigarro a varejo! Cigarro de palha! Cigarro de Bali! Seda a varejo! (coisas de Ipanema. Só lá alguém tem a cara de pau de vender seda a varejo, aos berros.)

Dá pra dar uma olhadinha no meu chinelo enquanto eu vou dar uma caída? Valeu! (é o princípio da confiança elevado à última potência pedir pra um desconhecido tomar conta de seus pertences. Mas na praia, acontece.)

A Coca tá geladinha, Dona Fátima, posso trazer? Fui retirada do meu devaneio auditivo pelo gentil barraqueiro, que se dá ao luxo de conhecer os clientes pelo nome. Pode trazer, obrigada. Recebo o maior dos sorrisos e retribuo com um de igual tamanho. Pego meu livro para ver a quantas anda o Doctor Sleep (novo romance do Stephen King, recomendo).

O pipi

In humor on 31/10/2014 at 12:41 AM

Querido Brógui,

Já que temos uma certa intimidade, vou lhe confessar que possuo a menor bexiga do mundo. É isto mesmo que você leu: consigo ficar, no máximo, uma hora sem fazer pipi. Super saudável, bebo muita água, consequentemente, desbebo na mesma proporção. Este fato prosaico me leva a vivenciar alguns apertos – literalmente.

De manhã, o tempo que levo para chegar ao trabalho é a conta pra bater o ponto, pegar o elevador e correr para o banheiro. Não raro tenho crises histéricas porque resolvem lavar os dois do andar ao mesmo tempo, então tenho que atravessar de volta para o outro prédio e rezar pra que esteja desocupado.

A noite, levanto duas ou três vezes, no melhor do soninho para ir. Em viagens aéreas longas, isto me obriga a incomodar o passageiro do lado, pulando por cima dele na ida e na volta, invariavelmente dando-lhe um chute nas canelas. Domingo, de Vitória pra cá, tive que me equilibrar enquanto o ônibus sacolejava pela estrada. Segura a calça, mira no sanitário – fazer pipi em pé é um exercício de tiro -, agarra na porta e pega o papel higiênico. Complexo, mas fiz isto três vezes. Na última, já estava craque.

Hoje, voltando do trabalho, trânsito infernal – mais do que o habitual. Geralmente quando isto acontece, entro em desespero, porque sei que vou ficar apertada no meio do caminho e sofrer horrores tendo que me concentrar na direção, mexer as pernas sem contrair o abdômen e abstrair a sensação de que, desta vez, não vai dar tempo.

Ok, pensei, tenho uma hora pra chegar ao meu destino. Uma hora depois, ainda estava na Avenida Chile. Abri o botão da calça pra aliviar a pressão. Meia hora depois, estava na Rua do Senado – para quem não conhece o Rio, significa um quarteirão. Suando frio, comecei a arquitetar um plano emergencial. Estava certa de que o Batmóvel iria ser batizado. Minimizar os danos. Achei um saco plástico no chão do carro. Forrei o banco bem direitinho. Abri a bolsa, tirei meus dois casacos, coloquei por cima e me preparei para o pior vexame da minha vida.

De repente, na esquina da Gomes Freire, visualizei ao longe um botequim. Meus olhos ficaram marejados. A rua estava interditada – sim, não basta o trânsito ser uma merda, tem que fazer um buraco mega no meio de uma via importante e deixar este buraco aberto, cercado por tapumes e colocar dois ou três desorientadores de trânsito desviando todo mundo para o mesmo lugar de onde acabou de sair.

Emburaquei nos cones. O desorientador mandou eu virar. Emburaquei mais um pouquinho, parei o trânsito, abri o vidro e pedi, suplicante: “Eu preciso usar o toalete.” Poucas vezes passei por situação tão constrangedora. O rapaz se apiedou de mim, tirou o cone da frente e gritou pro outro, que estava mais a frente: “Ela vai no banheiro!” Tem noção? Enfiei o carro de qualquer maneira numa vaga e corri para o boteco.

Nem preciso dizer que o estabelecimento foi o lugar mais medonho onde jamais pisei. Dois bebuns olharam pra mim de alto a baixo, Um terceiro parou com o copo no meio do caminho entre o balcão e a boca. O cara do balcão franziu a sobrancelha. Falei, bem baixinho: “Posso usar o banheiro?” O cara sacou uma chave presa com uma corrente num pedaço de cabo de vassoura. Bizarro. Ele deve usar o “chaveirinho” como arma. Apontou para uma portinha. Respirei fundo antes de entrar, pra não precisar respirar lá dentro.

Na antessala do pipiroom, um mictório. Sim, antes de entrar no banheiro propriamente dito, tem um mictório, o que me leva a crer que, quem quiser entrar na casinha, tem que pedir licença pro outro que está urinando fora da casinha. Para minha felicidade, ninguém estava fazendo uso da louça naquele momento. A porta do banheiro é trancada com um cadeado do tamanho da minha mão. Suponho que deva ter algum tesouro escondido lá dentro, em algum escaninho secreto que não consegui visualizar – tinha outras prioridades, como entrar no banheiro sem pisar no chão e conseguir pegar o último pedacinho de papel higiênico, cujo rolo, gloriosamente, estava pendurado num arame.

Aliviada, deixei o cabo de vassoura em cima do balcão e olhei timidamente em volta para ver se havia alguma pia para lavar as mãos. Claro que não, tolinha. Agradeci ao balconista, pedi licença ao bebum número três que estava com a perna esticada. Entrei no Batmóvel feliz e sorridente. Parei na frente do desorientador para agradecer e segui meu caminho.

Cheguei a casa uma hora depois. Tirei a roupa do lado de fora de casa e taquei fogo nela – ok, licença poética -. Fui ligeirinho para meu banheiro e beijei o vaso sanitário com cheirinho de pinho –  licença poética de novo, tá?

Brógui, descobri o que preciso para ser feliz: um banheiro limpo para eu usar na hora que eu quiser. Ou um estoque de fraldas geriátricas.

Melhor sentir demais a não sentir nada

In humor on 29/10/2014 at 10:42 AM

Querido Brógui,

Acordei bem cedinho, antes do despertador. É um momento especial, um silêncio aconchegante. Olhei pela janela. O dia ia ser ensolarado. Adoro dias assim. Dias nublados me fazem sentir nublada.

Fui fazer minha canequinha de café, sentei no degrau da varandinha dos fundos e, enquanto ouvia o despertar dos passarinhos, fiquei pensando em como viver é bom e este pensamento me levou às lágrimas de felicidade.

Lembrei das minhas viagens, dos shows que assisti, de todas as conversas e risadas que dei. Lembrei do rosto das pessoas que me fazem feliz e da saudade que sinto delas. Pensei em como eu perco tempo com coisas inúteis, ideias inúteis e pessoas inúteis. Prometi não fazer mais isto.

Vi uma vez num filme um personagem dizer que havia tanta beleza neste mundo que às vezes sentia que não ia dar conta. Sinto o mesmo. O mundo me envolve de tal forma que chega fico sem fôlego. Fico tentando, sem sucesso, sorver, mas não dá. Mesmo com meu olhar embaçado, com um foco que meu cérebro nunca reconhece, já vi – e pretendo continuar vendo – o que a natureza fez e o que o Homem fez. Minha fome jamais será saciada, as horas do dia são poucas, os meus neurônios não são suficientemente velozes para fazer todas as sinapses necessárias.

Tento, também sem sucesso, evitar que o que não é bonito me atinja. Para me proteger, criei casca, uso máscara, capacete e armadura. Assumo ares de fortaleza para sobreviver, já que tudo o que eu sinto, eu sinto demais. Melhor assim. Melhor sentir demais a não sentir nada, mas confesso que às vezes gostaria de ser um pouquinho menos eu. Acho que seria mais fácil.

Da minha janela vejo o Pão de Açúcar e o Morro da Urca. No meio do caminho entre meu olhar e o bondinho há uma árvore com as folhas em tons rosados. O céu está limpinho. Dá pra não chorar?

Tô indo. De novo.

In humor on 30/09/2014 at 8:26 AM

Querido Brógui,

Minha primeira viagem, digo, não a primeira, primeira mesmo, mas a primeira para o exterior, aconteceu em um momento em que eu estava em crise. Emocionalmente abalada, questionando os rumos da minha vida e para onde estavam me levando os caminhos – tanto os que havia escolhido, como os que me haviam sido impostos por força das circunstâncias. Eu tinha certeza de que não era aquilo que eu queria para mim, mas não sabia como sair daquilo. Eu não tava feliz, me sentia sugada, deprimida. Então, decidi que precisava fazer alguma coisa além de ficar chorando pelos cantos e posando de vítima.

Havia uma colega minha do trabalho que habitualmente viajava. Num rompante pedi à ela que, na sua próxima viagem, me deixasse acompanhá-la. E assim foi. Mais ou menos. Na verdade ficamos juntas apenas nos primeiros dias e nos últimos. Ela tinha outros planos e eu também. Grande parte do tempo fiquei sozinha, dando conta de sobreviver. Sobrevivi, não sem arranhões. Melhor: vivi.

Quando desembarquei em Londres, me vi na calçada em frente à Victoria Station, com a mala na mão, um frio horroroso e sem a menor noção para que lado devia caminhar. Era cedo ainda, mas em Londres, no inverno, quatro horas da tarde é noite fechada. As calçadas molhadas, andei com cuidado para não quebrar uma perna. Cheguei ao hotel, como cheguei a todos os lugares que quis. Cheguei a todas as estações de trem, aeroportos, museus, parques, castelos. Cheguei a todas as cidades que quis, cheguei à casa da Cecília, cheguei a todas as obras de arte, arcos, igrejas, cheguei ao Brasil.

Nem tudo foram flores, muita coisa deu errado, tive muito medo, chorei sentada na beira da cama algumas vezes. É, Brógui. Eu tenho medo sim, mas meu medo não me paralisa. Eu choro na beira da cama, sim, mas rapidamente tomo pé da situação, lavo o rosto e sigo. O que dá errado, eu conserto. Aprendi com esta viagem que sou perfeitamente capaz de dar conta de mim.

Depois daquela, já fiz outras, sempre seguindo em frente, com meu mapinha na mão, minhas botas surradas, minha mochila. Cada vez fica melhor. Eu fico melhor.

Hoje estou indo para Nova Iorque. Nunca pensei em ir pra lá, mas as conjunções astrais me levaram a este novo destino. A vida me convidou e eu aceitei.

Mando notícias.

Squash, Tênis, Frescobol

In humor on 23/09/2014 at 10:53 AM

Querido Brógui,

Engarrafamentos servem para alguma coisa, além de nos deixar com os nervos à flor da pele. Eu os uso para conversar comigo mesma e hoje o papo foi animado.

Fiz um estudo detalhado acerca dos tipos de relacionamentos, fazendo uma análise comparativa com o Squash, o Frescobol e o Tênis. É, Brógui, ou isso ou surtar e sair distribuindo porrada a torto e a direito.

Há os relacionamentos tipo Squash – aquele em que o jogador fica sozinho jogando a bolinha na parede. Neste tipo de relacionamento, um faz o papel de Jogador, o outro de Parede. O Jogador, animadão, faz de tudo para manter a bolinha no ar, se joga, corre prum lado, corre pro outro, fica mortinho e a Parede…nada. Nem uma gotinha de suor – eu sei, eu sei, parede não sua -, nem uma respiração mais acelerada – eu sei, eu sei, parede não respira -. A Parede fica lá, paradona, durinha, aguardando a bolinha que vem. Não ajuda, não dá nada, só recebe. Fica esperando e, se a bolinha não chega ou se ela cai no chão, não é problema seu, afinal, não tem culpa, não foi ela quem fez errado (?). A responsabilidade é toda do Jogador, inclusive a de recomeçar o jogo. A Parede não age, só reage. É o tipo de relacionamento perfeito para aquele que quer ter o controle de todos os movimentos do jogo e para aquele que não tá a fim de fazer esforço. Um relacionamento de sucesso quando um Jogador encontra a sua Parede e vice-versa.

Nos relacionamentos tipo Tênis, há também dois participantes, com suas respectivas raquetes e o objetivo e vencer o outro. Ver quem é mais inteligente, quem é mais ágil, mais resistente, quem é melhor. Os dois jogam juntos, mas não exatamente juntos, já que cada um joga por si. Tudo gira em torno de verificar quais são as fraquezas do outro e atacar naquele ponto específico. Fazer com que o outro não consiga rebater a bolinha confere ao Jogador uma sensação ímpar de poder e domínio – sensação meramente ilusória, porque como sabemos, a bolinha cai tanto de um lado como do outro. Eu, particularmente, não sei direito jogar isto. Não sou competitiva, o máximo que consigo fazer é tentar uma derrota não muito humilhante e, se nem isto consigo, perco a esportiva, meto uma raquetada no quengo do adversário e fim de jogo. Aliás, esta é a palavra chave: adversário. Nos relacionamentos Tênis, você não tem um companheiro de jogo, você tem um adversário. Muito esquisito, mas, bons jogadores podem fazer com que o jogo perdure infinitamente – até que um deles morra de exaustão – ou de prazer.

No terceiro relacionamento, o Frescobol, a brincadeira é não deixar a bolinha cair. Veja bem, Broguinho, falei “brincadeira” e não “jogo”. Ninguém tá ali pra ganhar, tá ali pra brincar, se divertir. O objetivo é facilitar a vida do outro, porque facilitando, jogando a bolinha bem direitinho, a brincadeira continua, continua, continua… E se a brincadeira continua, fica todo mundo feliz. Pouco importa quem foi que mandou mal. Tenta-se recuperar a bolinha, e, se cair, também pouco importa quem não conseguiu pegar, o outro pega, ele mesmo pega, e começa tudo de novo. Dizem que foi Millôr Fernandes o criador do Frescobol, não sei se é verdade, mas se foi, faz sentido. Só da cabeça de um gênio poderia nascer um esporte onde a última das preocupações e mensurar quem é melhor ou pior. A graça toda está em conhecer o outro, não para derrubá-lo, mas para ajudá-lo – e ajudando o outro, ajuda a si mesmo. E assim vai: quanto mais você brinca, melhor fica, porque os dois vão aprendendo a mandar a bolinha direitinho na raquete do outro. Além disso tudo, no Frescobol não há categorias. Pode jogar homem com homem, mulher com mulher, mulher com homem, criança com adulto, peso pesado com peso pena, jovem com não-tão-jovem-assim, baixinho com gigante, as possibilidades são incontáveis.

Eu já vivi os três tipos de relacionamento. Você também deve ter vivido. Eu sei o que me faz feliz – cada um sabe, ou ao menos deveria saber – , mas, se oriente:  não dá pra ser jogador de Tênis se você tem cabeça de Parede, ou brincar de Frescobol com espírito de tenista. Simplesmente não vai funcionar. Brinque, jogue (ou não brinque, nem jogue), faça o que lhe der na telha, mas não confunda as regras, não misture tudo, não embaralhe tudo e nem se meta a obrigar o outro a gostar do que você gosta. Ado, ado, ado, cada um no seu quadrado.

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