Fatinha

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A quem interessar possa

In Sem categoria on 17/10/2008 at 6:59 PM

Querido Brógui

Uma leitora traumatizada hoje me abordou para dizer que gosta tanto do que eu escrevo que morre de vontade de repassar os meus textos, mas não o faz porque eu proibí. Que fique registrado: superem o bloqueio emocional, essa minha fase tiranossaura, que ameaçava de morte quem divulgasse meu besteirol, já passou. Repassem, repassem, repassem. Enviem para toda a sua lista de amigos e para a dos inimigos também. Agradeço com os olhinhos marejados de lágrimas essa demonstração de apreço.  Beijocas. 

Outra coisa: descobri que o prazo de validade das publicações aqui na página do Terra é de um ano. O que eu escrevi em outubro do ano passado foi para o limbo da Internet. Então, a hora é essa: quer ler ou reler a produção de novembro de 2007, corre lá no arquivo antes do final do mês. Caso contrário, vai ter que cantar , aos prantos,  "Quem comeu, comeu, quem não comeu, não come mais."

PS: Essa vai dedicada à Lili, a traumatizada. Valeu o toque!

PS 2: mandei você ir ler a produção de novembro, não foi? Pois é, foi mal. Em novembro não teve produção alguma, eu estava de molho, me recuperando de uma cirurgia. Pra não perder a viagem, leia a de dezembro.

 

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Cretinices

In Sem categoria on 17/10/2008 at 6:20 PM

Querido Brógui,
Essa edição é em homenagem a nós, professores, e à nossa árdua batalha no dia-a-dia. Não é inédita, aliás, pra falar a verdade, nem requentada mesmo é. Digamos que ela é "trequentada". Ela é datada de 2002, não havia nem ainda o "Querido Diário" e, quando ele nasceu, eu requentei. Sendo assim, é a terceira vez que empurro o mesmo texto pela sua goela abaixo e ele ainda é, seis anos depois, a fiel, pura e cruel realidade de meu alunado.
Lá vai:

"Querido Diário,

Neguinho fica por aí espalhando que essa humilde e simpática professora de História é grossa, que é malcriada, que tem tolerância zero. Já me disseram que eu rosno e que meu olhar irado congela qualquer criatura num raio de cem metros.
Após o meu relato, diga sinceramente se a cretinice do alunado tem limites. Se você não é professor ou nunca teve contato com crianças, atire a primeira pedra.

Cretinice 1
Sete horas da manhã, cara inchada, ainda com cheiro de travesseiro, chegando ao meu local de trabalho, sabendo que vou ter que encarar dúzias de adolescentes e pré-adolescentes e crianças e colegas e etc, etc, etc.
“A senhora vai dar aula?”
“Não, eu não vou dar aula, só vim aqui porque acordei as cinco e meia da manhã e como não tinha nada melhor pra fazer eu vim aqui passear e ver se você estava bem de saúde.”

Cretinice 2
Mesmo contexto.
"A senhora veio?”
“Não, eu não vim. O que você está vendo é um holograma, está tendo uma visão do inferno, você está sonhando e tendo um pesadelo.”

Cretinice 3
Mesmo contexto.
“Por que a senhora veio?”
“Por que você veio?”

Cretinice 4
Dia de prova.
“Professora, eu não assisti a nenhuma aula da senhora. O que eu escrevo na prova?”
“Seu nome. E vê se põe letra maiúscula.”

Cretinice 5
O trabalho é para ser feito em folha separada para que eles me entreguem no final da aula.
“Precisa colocar o nome e a turma?”
“Não. Ontem comprei pilhas novas pra minha bola de cristal.”

Cretinice 6
Seis meses depois de iniciado o ano letivo, o aluno pergunta: “Qual é mesmo a matéria que a senhora ensina?”
“Grego arcaico.”

Cretinice 7
Acabo de passar um exercício no quadro.
“É pra copiar?”
“Não. É que eu estava com vontade de me sujar toda de giz, cheirar um pouquinho de pó e ficar com câimbra no braço.”

Cretinice 8
Continuando a cretinice nº 7, o aluno copia tudinho.
“É pra fazer?”
“Não. Leva pra casa que sua mãe responde pra você.”

Cretinice 9
Já em desespero, com a bexiga quase explodindo, pego a bolsa e aviso que vou descer.
“A senhora vai pra casa ?”
“Não. Vou usar o banheiro aqui da escola mesmo. "

Cretinice 10
Dando continuidade, provando minha tese que cretinice não tem limites, o aluno retruca:
“Vai fazer o quê?”
“Brincar de amarelinha.”

Está com pena dos alunos? Tá achando que sou demasiadamente cruel, irônica, debochada e deseducadora? Pois você não entende nada de educação.
Passados alguns meses nessa salutar convivência, ao ouvir perguntas cretinas, apenas digo em voz baixa e com um sorriso sarcástico nos lábios: ”É pra eu responder ou se trata de uma pergunta meramente retórica?” E o aluno, que é cretino, mas não é burro, rapidamente responde: “É meramente retórica.”
Viu? Eles sabem o que é retórica. Sou ou não sou uma professora de mão cheia?

Esse texto é dedicado à Michelle, minha ex-aluna, futura professora, provando que ainda há almas a serem salvas nesse mar de cretinice e que, por essa almas, vale o sacrifício.

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