Fatinha

Síndrome de Burnout

In humor on 06/07/2012 at 10:57 AM

Querido Brógui,

Minha musa inspiradora de hoje foi Maria Candida, que me enviou a cópia de uma Lei, de autoria do vereador Marcelo Piuí (nome que é uma piada pronta), e que institui a Campanha Permanente sobre a Síndrome de Burnout. O que vem a ser isso? Perguntei a mesma coisa para o Senhor Gúgou, amigo de infância de 99% dos ignorantes (o 1% é o ignorante que nem foi apresentado ao Gúgou).

Gúgou me disse que Burnout é um tipo de estresse ocupacional que acomete profissionais envolvidos com qualquer tipo de cuidado em uma relação de atenção direta, contínua e altamente emocional. Fiquei na mesma e continuei lendo o artigo. Os sintomas são exaustão emocional, despersonalização e baixa realização pessoal no trabalho (gostei da parte da despersonalização). Fiquei preocupada, tendo em vista que duas vezes por semana sou exposta ao ambiente insalubre da sala de aula e que muitas amigas queridas o são diariamente. Continuei a leitura.

“Perrenound (1993) diz ser a profissão docente uma “profissão impossível”. Ok. Posso atestar isso. Farber (1991) diz que “os professores sentem-se emocional e fisicamente exaustos, estão freqüentemente irritados, ansiosos, com raiva ou tristes. As frustrações emocionais peculiares a este fenômeno podem levar a sintomas psicossomáticos como insônia, úlceras, dores de cabeça e hipertensão, além de abuso no uso de álcool e medicamentos, incrementando problemas familiares e conflitos sociais”. Céus! Ser professor é mais perigoso que trabalhar numa usina nuclear e mais pesado que ser estivador. Eu me vi em todas as características, exceto o abuso no álcool e medicamentos. O resto… Tô dentro.

Um professor é uma bomba relógio prestes a explodir, com um agravante: tem que ficar segurando o pino da bomba porque, se ela explodir, ainda vai preso, acusado de assédio, violência contra menores, racismo e sei lá mais o que, afinal de contas, o pobre aluno é apenas uma vítima desse ser descompensado, mal remunerado, desequilibrado, malvado, antiecológico.

Continuei a leitura, já com as mãos trêmulas. “Professores possuem expectativas de atingir metas um tanto ou quanto irrealistas, pois pretendem não somente ensinar seus alunos, mas também ajudá-los a resolverem seus problemas pessoais.” “Metas um tanto ou quanto irrealistas” é um eufemismo ímpar. As metas são surreais. Além disso funcionamos, sem qualquer treinamento especial, como psicólogos, assistentes sociais, pais de santo, fonoaudiólogos, babás, carcereiros e saco de pancada. Um combo promocional, já que nossos serviços são prestados por um precinho de liquidação de fim de estação.

Sigamos. “A falta de autonomia e participação nas definições das políticas de ensino tem mostrado ser um significativo antecedente do burnou.” Sem mais comentários. Quem trabalha no Rio de Janeiro sabe o que é ser levado ao sabor das trocas de governo. Às vezes nem precisa trocar o governo, são dadas ordens e contraordens e quando a gente acha que entendeu, muda de novo.

Não consigo parar de ler. “A relação com familiares dos alunos, de acordo com Abel e Sewell (1999), também se mostra muitas vezes problemática e estressante, seja pela falta de envolvimento deles no processo educacional – acreditando serem a escola e o professor os únicos responsáveis pela educação dos filhos – seja pelo excesso – acreditando ser o professor incompetente e inexperiente e, muitas vezes, o causador dos problemas apresentados pelo aluno.” Na mosca! O aluno não aprendeu? Culpa do professor. O aluno deu na cara de outro aluno? Culpa do professor. A aluna fica grávida? Culpa do professor. (Isso é real. Uma escola aqui do Rio não atingiu a meta para o abono porque tinha muitas alunas adolescentes grávidas).

“O professor sente que seus esforços não são proporcionais às recompensas obtidas e que futuros esforços não serão justificados ou suportados.” Isso chama-se “jogar a toalha”, “pedir penico”, “bater no tatame”. Normal na profissão. Daí, alguns como eu, chutam o balde e saem do magistério. Conheci uma que fui ser carcereira num presídio feminino, disse que era mais tranquilo.

No mais, digo que conheço muitas vocacionadas (eu sou uma delas). Umas permanecem brigando para a coisa dar certo, outras já desistiram e estão só cumprindo tabela, outras estão aposentadas pela psiquiatria. Não conheço nenhuma feliz na profissão.

PS: quem quiser ler o texto que citei, procure “A SÍNDROME DE BURNOUT E O TRABALHO DOCENTE” de Mary Sandra Carlotto.

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  1. Momentos de alegria…??????????!!!!!!!!!!!!!! Já não lembro mais! Bj.

  2. Adorei o texto! Os momentos de alegria existem, concordo com a Claudia, mas os de desgosto estão conseguindo superar, uma pena.

  3. Adorei o seu texto.Nosso “querido prefeito” deveria ler.

  4. Só me vem uma sigla à cabeça: PQP!

  5. É uma pena, mas é a mais pura verdade… Temos momentos de alegria na profissão, mas conhecer alguém feliz com ela hoje em dia é raro… O que é uma lástima, porque não existiriam os outros profissionais sem o professor.

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