Querido Brógui,
Peguei o note pra escrever acerca de uma maluquice protagonizada pela Prefeitura do Rio de Janeiro. Qual não foi minha surpresa quando me deparei com um rascunho não publicado de uma outra maluquice similar protagonizada pela mesma entidade. De duas, uma: ou eu fui marcada com um X no meio da minha testa ou a Prefeitura é conduzida, desde há muito, por um oligofrênico. Ou vários.
Então… pq esse o título tão extenso para esse post? Vamos lá.
Eu tive um hamster quando era criança. Lembro que havia uma rodinha na gaiola e que o bichinho corria quilômetros alí dentro, sem chegar a lugar algum. É assim que me sinto quando tenho que arrancar qualquer coisa da Prefeitura do Rio de Janeiro. Qualquer coisa não é exagero. É qualquer coisa mesmo. Qualquer pedacinho de papel assinado e carimbado demanda entrar no loop do hamster até achar que tudo faz parte de um complô pra fuder com meu juízo e que eu sou o próprio Doutor Estranho navegando entre os multiversos sem saber exatamente em que tempo e lugar estou. Provavelmente em algum episódio de Além da Imaginação. Sacou a minha sacada? Genial, né?
Vou tentar resumir aqui o enredo dessa novela que dura aproximadamente sete anos. SETE ANOS!!!! O tempo que o personagem de Brad Pitt passou no Tibet buscando a iluminação.
Quando comprei meu apartamento, toda feliz porque tinha direito de construir na laje acima da minha própria cabeça, entrei com um processo para fazer tudo dentro dos conformes, tudo bonitinho como manda o figurino. Usando a velocidade cinematográfica da passagem do tempo, seguem os acontecimentos de lá pra cá.
Paguei antecipadamente pela legalização de uma obra ainda não realizada e que consta apenas no projeto, recebi um auto de infração porque um fiscal da Prefeitura que nunca colocou as patas no meu imóvel disse que havia uma construção irregular – que não existe -, recorri e tive meu pedido de impugnação indeferido, fui multada, inscrita na Dívida Ativa porque me recusei a pagar – na época achava que esse ato ridículo de rebeldia iria resolver alguma coisa -, paguei a caralha da multa e ainda as custas do Cartório de Protestos pra limpar meu nome por causa de uma dívida de trezentos contos – quando tem uns e outros por aí devem bilhões aos cofres públicos e não pagam mesmo e pronto – e, quando eu achava que estava tudo bem, fui surpreendida por mais uma virada sensacional na novela.
A Prefeitura, numa escavação arqueológica, encontrou meu processo e, pra arrancar mais dinheiro dessa pobre contribuinte, decidiu me notificar para pagar uma taxa para obter um alvará para construção.
Para tudo e presta atenção nisso. SETE ANOS DEPOIS, os gênios do mal decidem que eu tenho que pagar por uma licença pra construir uma coisa – pela qual eu já havia pago mesmo sem ter colocado nem um prego na porra do lugar.
Como é que eu posso precisar pagar – de novo – pra executqr um projeto de construção que, segundo a própria Prefeitura, já existe, tendo essa diligente entidade punido severamente essa vil infratora? Meu senhor, não há nada construído. Aliás, eu nem quero mais construir. Como devo proceder pra extinguir esse processo? Todos os grilos do mundo cricrilaram e a resposta não veio.
Cai o pano, terceiro ato da tragicomédia. Recebi uma notificação para demolir a obra executada sem licença. Vou repetir, caso não tenha suportado a guinada e caído da rodinha do hamster. TENHO QUE DEMOLIR A CONSTRUÇÃO QUE NÃO EXISTE. Aquela mesma construção que, só a título de lembrança, foi autorizada e que eu disse não obrigada.
Há um prazo de vinte dias para isso. Caso eu não consiga viajar para esse universo paralelo da Prefeitura do Rio de Janeiro, no qual há um edificação e, simultaneamente, não há uma edificação; para o obscuro universo onde a obra é autorizada pelo órgão (in) competente, mas também é irregular; se eu não conseguir chegar lá a tempo de botar abaixo o que existe e ao mesmo tempo não existe, receberei multas semanais, sem prejuízo de outras penalidades – que não posso sequer imaginar o quão cruéis serão nessa outra dimensão. Fico até com medo de perguntar lá na Prefeitura.
FALAÊ!