Fatinha

Os sons da praia

In humor on 22/11/2014 at 3:57 PM

Querido Brógui,

Interrompo minha leitura, coloco o livro no colo, fecho os olhos e passo a ouvir os sons da praia.

Como um rádio, vou sintonizando as estações. No fundo, o barulho das ondas, criando um clima. O ritmo do mar torna-se como o de uma música, dá até pra saber quando virá a próxima. Mudo a estação.

A conversa da moça ao lado com seu bebê. Pergunta a ele se ele está gostando. Dois rapazes, aparentemente iniciando um relacionamento. Falam sobre suas famílias, seus trabalhos. As cadeiras são arrastadas mais pra perto uma da outra. As vozes diminuem de volume. Parece que vai rolar…

Outra estação: barulho de mais uma barraca sendo fincada na areia. Três cadeiras. Três amigas. Passa o filtro aqui pra mim? Meu cabelo tá um ó. Ontem eu tava muito doida, peguei o cara errado! Risos.

Olha o Groboooo! Biscoito Groboooo! Sal-gado e doceeee! Quanto? Cinco real. Tudo isso? Aumentou? É verão. O mercado tá aquecido. (ambulante economista.) Quero não. Valeu. Olha o Grobooooo! Biscoito Groboooo! Sal-gado e doceeeee!

Óculos de sol! Bronzeador! (ninguém vende filtro solar e mais: ainda existe aquele travesseirinho de plástico com um óleo vermelho feito sabe Deus com que ingredientes.) Doura pelos! Cangão! Cangão! (é uma canga gigantesca que abriga facilmente toda uma família italiana.)

Açaí! Açaí! Queijinho na brasa! Sinto o calor do fogareiro perto do meu pé. Com orégano? Pimenta? Curry? (curry? esta é novidade.) Mel? Mal passado ou bem passado? Dá pra fazer desconto não. O queijo não é meu e o dono conta o dinheiro no final da praia. Valeu, Princesa! (este vendedor é antigo, do tempo em que os homens ainda chamavam as garotas de “princesa”.)

Biquini! Pode experimentar! Tem espelho de corpo inteiro! Parte de cima, parte de baixo!

Camarão na brasa! (tenho quase certeza de que, assim como o queijinho na brasa, o camarão também foi proibido pela vigilância sanitária. quem liga?) Falando em vigilância sanitária…

Olha o mate! Beba beba beba maaaaate! É peteleco no dente, soco na mente! Tá gelaaaaaado! Faz um selfie segurando o copo e manda pro grupo do zapzap! (sensacional!) Beba beba beba maaaaate! (O vendedor de mate é o meu preferido. Com aqueles dois galões pendurados, um em cada ombro: um com o mate, o outro com a limonada. Um clássico das praias cariocas – junto com o Grobo -. Ninguém sabe ao certo de onde vem a água pra fazer o mate e muito menos como os limões são espremidos. Não adiantou tentarem empurrar o mate industrializado no copinho. O sabor vem da sujeira. Ninguém nunca viu aqueles tonéis serem lavados e desconheço como aquele treco fica gelado o dia inteiro. Como também nunca tive notícias de morte por causa do mate com limão…)

Cigarro a varejo! Cigarro de palha! Cigarro de Bali! Seda a varejo! (coisas de Ipanema. Só lá alguém tem a cara de pau de vender seda a varejo, aos berros.)

Dá pra dar uma olhadinha no meu chinelo enquanto eu vou dar uma caída? Valeu! (é o princípio da confiança elevado à última potência pedir pra um desconhecido tomar conta de seus pertences. Mas na praia, acontece.)

A Coca tá geladinha, Dona Fátima, posso trazer? Fui retirada do meu devaneio auditivo pelo gentil barraqueiro, que se dá ao luxo de conhecer os clientes pelo nome. Pode trazer, obrigada. Recebo o maior dos sorrisos e retribuo com um de igual tamanho. Pego meu livro para ver a quantas anda o Doctor Sleep (novo romance do Stephen King, recomendo).

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