Fatinha

Squash, Tênis, Frescobol

In humor on 23/09/2014 at 10:53 AM

Querido Brógui,

Engarrafamentos servem para alguma coisa, além de nos deixar com os nervos à flor da pele. Eu os uso para conversar comigo mesma e hoje o papo foi animado.

Fiz um estudo detalhado acerca dos tipos de relacionamentos, fazendo uma análise comparativa com o Squash, o Frescobol e o Tênis. É, Brógui, ou isso ou surtar e sair distribuindo porrada a torto e a direito.

Há os relacionamentos tipo Squash – aquele em que o jogador fica sozinho jogando a bolinha na parede. Neste tipo de relacionamento, um faz o papel de Jogador, o outro de Parede. O Jogador, animadão, faz de tudo para manter a bolinha no ar, se joga, corre prum lado, corre pro outro, fica mortinho e a Parede…nada. Nem uma gotinha de suor – eu sei, eu sei, parede não sua -, nem uma respiração mais acelerada – eu sei, eu sei, parede não respira -. A Parede fica lá, paradona, durinha, aguardando a bolinha que vem. Não ajuda, não dá nada, só recebe. Fica esperando e, se a bolinha não chega ou se ela cai no chão, não é problema seu, afinal, não tem culpa, não foi ela quem fez errado (?). A responsabilidade é toda do Jogador, inclusive a de recomeçar o jogo. A Parede não age, só reage. É o tipo de relacionamento perfeito para aquele que quer ter o controle de todos os movimentos do jogo e para aquele que não tá a fim de fazer esforço. Um relacionamento de sucesso quando um Jogador encontra a sua Parede e vice-versa.

Nos relacionamentos tipo Tênis, há também dois participantes, com suas respectivas raquetes e o objetivo e vencer o outro. Ver quem é mais inteligente, quem é mais ágil, mais resistente, quem é melhor. Os dois jogam juntos, mas não exatamente juntos, já que cada um joga por si. Tudo gira em torno de verificar quais são as fraquezas do outro e atacar naquele ponto específico. Fazer com que o outro não consiga rebater a bolinha confere ao Jogador uma sensação ímpar de poder e domínio – sensação meramente ilusória, porque como sabemos, a bolinha cai tanto de um lado como do outro. Eu, particularmente, não sei direito jogar isto. Não sou competitiva, o máximo que consigo fazer é tentar uma derrota não muito humilhante e, se nem isto consigo, perco a esportiva, meto uma raquetada no quengo do adversário e fim de jogo. Aliás, esta é a palavra chave: adversário. Nos relacionamentos Tênis, você não tem um companheiro de jogo, você tem um adversário. Muito esquisito, mas, bons jogadores podem fazer com que o jogo perdure infinitamente – até que um deles morra de exaustão – ou de prazer.

No terceiro relacionamento, o Frescobol, a brincadeira é não deixar a bolinha cair. Veja bem, Broguinho, falei “brincadeira” e não “jogo”. Ninguém tá ali pra ganhar, tá ali pra brincar, se divertir. O objetivo é facilitar a vida do outro, porque facilitando, jogando a bolinha bem direitinho, a brincadeira continua, continua, continua… E se a brincadeira continua, fica todo mundo feliz. Pouco importa quem foi que mandou mal. Tenta-se recuperar a bolinha, e, se cair, também pouco importa quem não conseguiu pegar, o outro pega, ele mesmo pega, e começa tudo de novo. Dizem que foi Millôr Fernandes o criador do Frescobol, não sei se é verdade, mas se foi, faz sentido. Só da cabeça de um gênio poderia nascer um esporte onde a última das preocupações e mensurar quem é melhor ou pior. A graça toda está em conhecer o outro, não para derrubá-lo, mas para ajudá-lo – e ajudando o outro, ajuda a si mesmo. E assim vai: quanto mais você brinca, melhor fica, porque os dois vão aprendendo a mandar a bolinha direitinho na raquete do outro. Além disso tudo, no Frescobol não há categorias. Pode jogar homem com homem, mulher com mulher, mulher com homem, criança com adulto, peso pesado com peso pena, jovem com não-tão-jovem-assim, baixinho com gigante, as possibilidades são incontáveis.

Eu já vivi os três tipos de relacionamento. Você também deve ter vivido. Eu sei o que me faz feliz – cada um sabe, ou ao menos deveria saber – , mas, se oriente:  não dá pra ser jogador de Tênis se você tem cabeça de Parede, ou brincar de Frescobol com espírito de tenista. Simplesmente não vai funcionar. Brinque, jogue (ou não brinque, nem jogue), faça o que lhe der na telha, mas não confunda as regras, não misture tudo, não embaralhe tudo e nem se meta a obrigar o outro a gostar do que você gosta. Ado, ado, ado, cada um no seu quadrado.

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  1. Querido Agnaldo, quando falo em relacionamentos, os penso de forma mais ampla… O nosso é um delicioso frescobol! Bjinhos

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  2. Minha linda amiga, amei o que você escreveu, e como você, já vivi relacionamentos também nas três modalidades, mas atualmente, estou sem qualquer modalidade de relacionamento. Nem tipo bolinha de gudes…parabéns pela excelente inspiração num momento de engarrafamentos carioca.Beijos no coração.

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