Fatinha

Andando de ônibus

In Sem categoria on 07/10/2008 at 7:22 PM

Querido Brógui,
Essa é também de 2006 e já estou estourando a semana comemorativa. Quer que eu pare de requentar textos?

Querido Diário

Não gosto de andar de ônibus por algumas poucas razões. Vou fazer uma breve listinha:
Porque tenho que andar até o ponto, porque tenho que ficar em pé esperando, porque tenho que andar em pé dentro dele, porque um monte de gente desconhecida fica encostando em mim, porque tenho que segurar naqueles ferrinhos asqueirosos onde todo mundo põe a mão, porque tenho que sentar naqueles bancos onde todo mundo põe a bunda, porque tenho que descer dele e andar até o meu destino, porque ele pára em quinhentos pontos antes de chegar onde eu quero, porque ele passa em quinhentos lugares antes de chegar onde eu quero, porque as pessoas fedem às sete horas da manhã e fedem mais ainda às seis da tarde, porque as pessoas falam ao berros no celular sem se mancar que estão em público e que meu ouvido não é penico, porque tem sempre um infeliz pedindo desculpas por atrapalhar a minha viagem mas que está vendendo dois saquinhos de bala, três jujubas e uma caneta Bic por um real e eu devo ajudar porque é melhor ele estar ali trabalhando do que estar roubando e Deus me acompanhe o resto da viagem, porque tem sempre uma mulherzinha que joga a bolsa na minha cara quando passa pelo corredor e tem sempre um ser involuído jogando o *** na minha cara quando passa pelo corredor.
Só. Acho que é só isso.
Eu o-dei-o o transporte coletivo, mas ainda o utilizo porque não tem jeito mesmo. Ir pra cidade de carro é enlouquecedor, é pior que andar de coletivo. Procurar vaga é algo que me deixa fora de mim. Sempre me lembro daquele filme “Um dia de fúria”. Identifico-me totalmente com o personagem do Michael Douglas e me vejo dando porrada em guardador, socando pedintes, largando o carro no meio da Presidente Vargas com o freio de mão puxado, dando com a tranca do carro na cara do guarda, essas coisas.
Hoje peguei um coletivo. Nem percebi que era um sem ar condicionado. Sentei no quentão, estava um calor danado, pensei no meu cabelo escovado que estava começando a encolher e comecei a me distrair olhando as figuras que passavam pela roleta.
De repente, entra no ônibus um homem todo suado, sem camisa. Fiquei gelada e olhei para o lugar vazio ao meu lado. Rapidamente fiz uma súplica a Deus: "Senhor, não permita que esse homem se sente aqui!!!" Deus, ocupado com coisas mais importantes, não atendeu à minha prece. Tudo bem. Vai ver que eu merecia mais esta provação na minha vida.
O homem sentou ao meu lado. E, não apenas sentou, mas ENCOSTOU EM MIM!!!! Encostou aquele braço nojento, suado, cheio de pelos nojentos e suados no meu bracinho limpinho, com cheirinho de Dove. Nem disfarcei a careta, me encolhi toda no cantinho, só faltei pular pela janela. O que o cara fez? Se acomodou mais ainda e ENCOSTOU EM MIM DE NOVO!!!
Obs: daí vem a minha teoria de que as pessoas espaçosas só são espaçosas porque a gente dá espaço pra elas. Quanto mais a gente se encolhe, mais o espaçoso se espalha, já que pra ele, todo o espaço do mundo lhe pertence e você não faz mais do que sua obrigação ao se encolher pra ele se esticar.
Voltando…
Me encolhi mais ainda, tentei salvar o meu cabelinho do contato daquele ser abjeto. Sabe o que o cara fez? ABRIU AS PERNAS!!!! Sim. Porque não bastou ele se refestelar no encosto, ele tinha que abrir espaço no chão também. Aí, eu já com câimbra, toda encolhida, contraída, torta, temendo que meus membros gangrenassem, pedi licença pra me levantar. Ele deu? Não. Eu tive que me espremer entre ele e o banco da frente para poder passar, o verme não arredou um milímetro.
Passei. Taquei a bolsa na cara dele (tudo bem, é de pano e já foi pra lavar), pisei nos dois pés dele com o saltinho da minha sandália e ainda derrubei o jornal O Povo da mão dele. Não pedi desculpas, lógico, e fui sentar no assento do outro lado do corredor. (sim, tinha banco vazio, ele sentou do meu lado só pra me sacanear).
Desci dois pontos depois. Passei pelo corredor como um elefante furioso (lembrei da mãe do Dumbo), atropelei todo mundo, dei bolsada, pastada, livrada, pisada, bundada… Todos os passageiros foram vítimas da minha ira.
Cheguei em casa, tomei um banho de duas horas com escovão e caco de telha, desinfetei minha pasta e meu livro, taquei fogo na minha roupa e conjurei todos os demônios do reino abissal para que amaldiçoassem as empresas de transporte coletivo e em especial aquele asqueiroso que encostou em mim.
É, Querido Diário, você hoje conheceu minha faceta má. Como May West disse: “Quando eu sou boa, sou boa, mas quando eu sou má, sou melhor ainda”.

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