Querido Brógui,
O cenário é o Carnaval no Recife. Um hotel perto do Marco Zero, onde acontecem shows. O horário é no café da manhã. Os personagens são o Brógui que vos escreve e o cantor e compositor gente boa pra caraio do qual sou fã, Lenine.
Para quem não sabe quem é Lenine, minhas sinceras condolências e a recomendação de que amplie seus horizontes. O cara é, pra começo de conversa, pernambucano, o que já é uma puta credencial. Nosso crachá é um sotaque lindo, gostoso, musical, completamente diferenciado do nordestinês genérico que os habitantes do Sul Maravilha não têm ouvidos treinados para distinguir*.
*Obs: respeitosamente, tomo emprestado de Henfil a expressão que seus personagens das tirinhas da Graúna utilizavam quando se referiam à região Sudeste. Para quem não sabe quem foi Henfil e nunca leu as tirinhas da Graúna, minhas sinceras condolências e a recomendação de que amplie seus horizontes.
O Brógui estava sentado, tomando seu segundo balde de café, na tentativa de juntar o corpo na alma, quando vê entrando, todo dançante, Lenine. Sim, o cidadão tem uma andar dançante.
Minha primeira reação foi não acredito. Minha segunda reação foi preciso falar com ele. Minha terceira reação foi deixa o pobre tomar o café da manhã dele em paz. Venceu a segunda reação.
Levantei e me coloquei ao lado dele na fila pra pedir tapioca. Quer coisinha mais pernambucana do que comer uma tapioca no café da manhã? Tapioca raiz, de coco ou queijo coalho, não essa tapioca fitnessnutella que tá na moda.
Então, soltei um desculpe incomodar, mas eu precisava falar com você. Sou uma carioca meio pernambucana, Mamãe era daqui, então me sinto meio sua conterrânea. Viu? Usei meu passaporte pernambucano pra o ataque. Ele soltou um sorriso de orelha a orelha, que me fez sentir perdoada pela intromissão. Quem, no mundo, solta um sorrisão, na fila da tapioca, às sete horas da manhã, pra uma ilustre desconhecida que se acha no direito de dar bom dia pra um artista famoso, só porque a mãe dela nasceu em Pernambuco? Lenine, claro.
Oxe! Eu sou meio carioca também, moro há uns 40 anos no Rio. Mais sorrisos, abre os braços num gesto de acolhimento, joga o corpo pra trás.
Menino! Tu sabe que sou amiga de infância de Lu? Ela mora na casa em frente à minha. Te lembras dela? Pronto. Agora, além de usar meu sanguinho pernambucano como referência, ainda meto a Lu no rolo. Foi mal, Lu, usei seu nome, sem você me autorizar, para me conectar com ele. O que mais eu podia fazer pra a abordagem ficar menos fãlouca e mais familiar?
Lu? Claro que me lembro! Como ela tá? Quer coisa mais fofa do que entrar nessa conversa mole? Dar corda pra Fulana que tá puxando assunto em pé enquanto a tapioca esfria no prato?
Então… como somos pernambucanos cariocas e sou amiga de Lu desde criança, sinto-me como sua amiga de infância também. Fala sério! Como um ser humano normal é capaz de falar tamanha sandice? Talvez eu devesse ter tomado mais uma dose de café antes de assediar a vítima.
Pronto! Amigos de infância! Mais risos, mais braços abertos, mais corpo jogado pra trás.
Humildemente, depois dessa, me retirei, em estado de graça e fui me sentar. Quem senta na mesa ao lado? Lenine. Não se preocupe, Brógui. Não puxei papo merda com ele, nem tirei foto escondida com meu celular, só fique olhando de rabo de olho.
Ele se sentou, compartilhando uma mesa com uma família que já lá estava. Pediu licença, colocou seu pratinho na mesa e brincou com o bebezinho, que começou a chorar. Oxe! Ele se assustou com o cabeludo, foi?
Brógui! O cara que ia fazer um show pra milhares de pessoas no Marco Zero – por isso estava hospedado ali -, homenageado do Carnaval pela cidade do Recife, dá papo pra uma faladora de merda e divide mesa com uma família desconhecida com um bebê chorão. É ou não é uma pessoa especial essa daí?
Acabei meu café, me levantei e me virei para me despedir dele. Educadinha. Mas não foi um tchau, tenha um bom dia. Nesse momento, incorporei a entidade Brógui, abri a torneirinha de asneiras* e mandei o seguinte discurso, que merece ser reproduzido – com a devida licença poética – para que todos saibam a quantidade de bobagem que pode sair da boca de uma criatura antes das oito horas da manhã.
* Obs 2: respeitosamente, empresto de Monteiro Lobato a forma com ele se referia à personagem Emília, quando começava a falar. Nunca leu Monteiro Lobato e desconhece a Emília? Minhas sinceras condolências e a recomendação de que amplie seus horizontes.
Vou indo, meu amigo de infãncia! Vou pra piscina descansar um pouco. Ontem fui no bloco de Alceu e a véia tá quebrada.
Tu fosse?
Fui. Fantasiada de Robocop, claro. Joelheira, tornozeleira… Sabe como é… 60 anos, começa a dar defeito. Cheguei no hotel, pedi dois sacos de gelo e desmaiei na cama.
60? Mas tu estás ótima! Somos sexyagenários!
Poizé. Não tenho 60 ainda, mas resolvi que vou ter. Tu sabe que eu marquei ali 50, 50, 50. Minhas amigas faziam as contas e diziam que não era possível eu estar com 50 porque a diferença de idade entre nós estava aumentando e eu respondia que não tinha culpa se elas envelheciam e eu não. Então esse ano decidi que vou pular pros 60 .
Boa! Do riso, passou a gargalhada e até aplaudiu. Pronto, o Brógui fazia seu primeiro stand up, tendo como público,Lenine. Continuei, toda animada.
Depois de apanhar, ser pisada, empurrada e bulinada, consegui me sentar num banquinho lá na Rua da Aurora, pra ver o bloco passar e dançando sentada, só da cintura pra cima. De repente, quando o carro de som tava pertinho, ouvi uma voz diferente cantando. Quem era? Lenine. Nisso, o bichinho já tinha desistido de tomar café.
Tentei me levantar e, na primeira tentativa não consegui e caí sentada de novo no banquinho. Sabe carro com carburador? Lembra? Que a gente virava a chave e ele fazia nhem nhem nhem e não ligava? Pronto. Meus joelhos são meu carburador. Esfriou, fudeu. Trava. Mais gargalhadas, mais aplausos. Conquistei meu público.
Na terceira tentativa, uma mocinha me ofereceu a mão. A senhora que ajuda? Quero, minha filha, obrigada.
A essa altura, meu público tinha aumentado pra três pessoas. Acho que eram da banda dele, sei lá.
Agora tu vê. A senhora aqui precisa de ajuda pra se levantar do banco, ajuda pra subir no banco, mas quando escuta Lenine, começa a dançar. É ou não é um milagre de Carnaval?
Oxe, se é!
Dei por encerrado meu show, mandei beijo pro meu amigo de infância, virei as costas e saí flutuando do restaurante. Ainda ouvi às minhas costas:
Que figura!
FALAÊ!