Querido Brógui,
Ideias são vendidas o tempo todo. As pessoas compram o tempo todo. Nos são empurrados valores, pensamentos, comportamentos.
Eu, tal qual uma consumidora ingênua enganada na Black Fraude comprei e, além de pagar caro, parcelei no cartão. Fique escravizada por anos a fio a uma fatura que nunca diminuía. Juros compostos que fazem com que a conta aumente por mais que a gente tente liquidar.
A impagável dívida contraída comprando as supostas verdades absolutas, traz como brinde surpresa o binômio ansiedade / depressão. No pacote, a compensação fictícia de que comprar mais ideias idiotas vai amenizar o caos emocional.
Isso é coisa de velho!
Sabe que eu, de fato, cheguei a acreditar que envelhecer era como que uma falha, um bug no sistema divino. Hoje acredito que é, na verdade, a grande sacada da justiça da Criação. Pense no que seria dos jovens se a tudo que amealhamos (em tese) em nossa vivência fosse somada uma vitalidade e um corpinho de sereia? Se de nossa experiência fossem subtraídas as dores?
Eu comprei, como acho que a maioria de nós comprou, um produto com vício oculto. Aquele defeito que se manifesta depois de algum tempo de uso e que só piora. Não tem gambiarra que dê jeito. Só botando fora – já vai tarde – e comprando outra ideia melhor.
Quando temos menos idade, vivemos como se o mundo fosse acabar amanhã – ok, pode ser que acabe mesmo, mas isso não vem ao caso -. Nos acabamos de trabalhar, estudar, sair pra dançar, assistir a um show por dia, conhecer 50 países em 10 dias, aprender a saltar de paraquedas, falar mandarim, escrever em japonês, comer pra caralho, dormir tarde e acordar cedo pra ver se o tempo rende mais, ir pra academia enquanto faz curso online de gastronomia e artes visuais, assistir várias séries ao mesmo tempo e por aí vai. Dá até cansaço, só de escrever.
Isso é o normal. Não vou vender ideia merda como me venderam. Juventude etária é isso aí. Tem que viver isso aí, pra depois não cair no outro binômio arrependimento / culpa. Cada faixa tem que viver os pré-requisitos pra pular para a outra faixa. Tipo vídeo game, tipo construir uma casa com bons alicerces. Daí a crer que isso é a única possibilidade vai uma distância siderúrgica.
Há incontáveis maneiras de ser feliz. Querer fazer tudo antes do apocalipse e experimentar tudo antes que acabe é viver, assim como também é vislumbrar a finitude e dizer ok, ainda dá tempo pra alguma coisa e foda-se. Foda-se se não der. Fica pra próxima.
É assim que hoje penso no envelhecer. É aceitar que o tempo vai passar e simultaneamente perceber que fazer uma coisa pensando em fazer outra coisa ou fazer quatro ao mesmo tempo não terá o condão de retardar as voltas que a Terra dá. É parar de pensar no que não dá, no que não pode e pensar no que dá e no que pode – que é coisa pra caramba. É levar a vida com mais leveza, menos sofreguidão, menos sofrimento. Adequar os desejos à natureza.
Esse insight, essa sublime iluminação tive há pouco tempo. Demorei décadas pra aceitar a decrepitude física, desperdiçando minhas energias com mimimi e desconsiderando a ampliação dos meus horizontes intelectuais. Foram décadas pagando uma compra equivocada.
Como fiz? Simplesmente parei de pagar. Foda-se! Para meu deleite, a fatura começou a vir zerada. Nada de juros, nenhum cobrador batendo na minha porta e oferecendo brindes para eu retomar o pagamento. De vez, em quando ainda ouço um espírito de porco vendedor de telemarketing sacando da cartola um “tá ficando velha!”. Foda-se!
Como dizia Mamãe, a única alternativa pra não envelhecer, é morrer e isso aí eu não quero.
FALAÊ!