Fatinha

Autoajuda

In humor on 05/01/2021 at 7:35 PM

Querido Brógui,

Acordei hoje com esta música. Não fui acordada por esta música. Por incrível que pareça, hoje o vizinho taxista que trabalha na madrugada desligou o rádio antes de estacionar embaixo da minha janela. Acordei com esta música porque ela estava no meu sonho.

Havia muitas pessoas, todas sentadas no chão, em silêncio, usando máscaras. De repente, assim de repente – como em todos os sonhos – começou a tocar esta música – acho que apareceu um DJ (!) – e eu me levantei de um pulo – coisa que só mesmo em sonho eu conseguiria fazer – e comecei a dançar. Acordei.

A primeira coisa que me veio à cabeça foi que eu precisava escrever pra você. Precisava contar o meu sonho.

“É a vida, é bonita e é bonita.” Gonzaguinha escreveu isso em 1982. Há 39 anos, o que estamos vivendo não passaria de um roteiro batido de filme catástrofe, daqueles bem desgracentos, cheio de lágrimas, gritos e um final geralmente feliz. Jamais pensaríamos que respirar se tornaria algo tão perigoso, que viver se tornaria algo tão perigoso, que uma normal ida ao mercado se tornaria uma aventura.

O ano de 2020 foi phodda pra todo mundo, para uns até mais do que para outros (?). Sofrimento se mensura (?). O meu parece maior do que o de todo mundo porque é meu. Simples assim. Só eu sinto e dizer que consigo imaginar o do outro é balela. Posso ser solidária, companheira, amiga, ouvir, dar palpite, consolar, segurar a mão (não, segurar a mão é coisa do passado, a menos que esteja usando luvas), mas só quem sente sabe o que sente.

Perdemos pessoas próximas ou mais ou menos próximas ou distantes mas que são próximas de alguém que é próximo de alguém próximo. Os consultórios estão lotados de gente que está somatizando e adoecendo. É. Não podemos esquecer que as demais mazelas continuam aí. Não tem doença esperando a pandemia acabar para dar as caras. Desemprego, miséria, desigualdade sempre existiram (e tá pior). Preços subindo, coisas faltando, gente se aproveitando da desgraça para enricar mais ainda e se esconder dentro de uma bolha hiperbárica, estéril e confortável. Um bunker maravilhoso e virus free. Por outro lado, outros indo pra gandaia mesmo, sem máscara, sem cuidado algum porque encheu o saco de ficar trancado em casa e com a certeza de que o vírus só pega no vizinho e não dando a mínima se vai contaminar alguém.

Os psicólogos e psiquiatras estão fazendo hora extra pra dar conta da renca de gente deprimida, ansiosa, com todas as síndromes de que já ouvimos falar e mais algumas que estamos conhecendo agora. Aumentou ou número de drogados, sejam as drogas lícitas ou ilícitas. Gente buscando a fuga ou o consolo ou um fugaz esquecimento, ou alívio. Tanto faz. É gente em sofrimento.

Ok, tá difícil de ver a boniteza da vida, mas bora procurar a beleza no fato de estar vivo? Bora lembrar que somos sobreviventes de uma pandemia (sequelados, mas sobreviventes)? Bora celebrar? Não é possível que você não tenha vivido um minutinho sequer de alegria durante o ano todo. Viveu? Lembrou? Então seja grato pela vida, que é bonita pelo simples fato de ser vida.

E Gonzaguinha canta que a vida devia ser bem melhor e será. É isso que precisamos repetir como um mantra. Talvez, pela repetição, consigamos nos convencer de que há esperança de um dia nos abraçar de novo e nas conversas mencionar algo como “nos tempos da pandemia…”. A vida será melhor. Veremos/teremos uma vida melhor porque estamos aprendendo a olhar para ela com outros olhos. Temos agora a oportunidade de uma mudança radical de paradigmas e reavaliar o que é realmente bom, necessário, legal e o que não é. Podemos mudar nossos valores e quem sabe agora consigamos perceber o que realmente importa. Bem… ao menos espero que você, Querido Brógui, consiga, como eu sei que vou conseguir. Vou me convencer disso e isso vai se tornar real.

E, falando em convencimento, comecei a ler um livro ontem. Um livro de autoajuda. É, Broguinho, cheguei ao fundo do poço, lendo livro de autoajuda, o que sempre reputei como uma sequência de baboseiras que alguém escreve para ganhar dinheiro e nos dizer que tudo o que fazemos está errado e dando soluções milagrosas para nossa vida porque somos estúpidos demais para perceber o óbvio.

De todo modo, uma das coisas que li ontem foi que a única vantagem de se estar no fundo do poço é que só tem uma direção possível: para cima. Bacana. Inspirador. Dá um gás, mas ouso discordar. Não há apenas uma direção possível. Ainda há outra opção: cavar mais e tornar o buraco cada vez mais fundo. A vida é assim, é feita de escolhas, não dá pra escapar disso. Pequenas ou grandes, é o que passamos a maior parte do nosso tempo fazendo. E, uma vez a escolha feita, já era. Não dá pra apertar o ctrl x e deletar e querer reescrever a história da sua vida. É aceitar que o efeito borboleta já está acontecendo.

Como seria a minha vida se tivesse feito outras escolhas? | O arrumadinho

Não sei quem criou este quadrinho, mas é genial. Como seria se eu tivesse entrado à direita ao invés de entrar à esquerda? Onde eu estaria? E se eu tivesse casado ao invés de comprar uma bicicleta? Este é o típico pensamento inútil, que apenas consome energia, oxida nossos neurônios e faz com que entremos num loop infinito sem concluir absolutamente nada. Conheço você, Querido Brógui, e tenho certeza de que já fez isso alguma vez e ficou se consumindo na lava do arrependimento, da culpa, do coitadismo.

E aí vem Gonzaguinha me visitar no meu sonho e me lembrar que “é a vida, é bonita e é bonita.” Aquele livro que estou lendo diz da importância do otimismo. Pensar positivo, pra cima. Ser pessimista é fácil. Não nos faltam motivos. Quero ver é ser otimista em meio ao caos. Este é o desafio que faço a você, Querido. Alimentando o pessimismo, se ainda não está no fundo do poço, está prestes a cair nele. Aliás, se está lendo atentamente esta edição autoajuda, refletiu acerca de minhas sábias palavras e chegou sua leitura até este ponto, lamento informar: você já está no fundo do poço, aceitando conselhos de qualquer um, até os meus.

Fique bem, se cuide.

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